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Como Palavra peregrina, fazendo caminho, Jesus reza para que ele possa perseverar na escuta e na comunhão com Deus (Cf Lc 3, 21-22; Lc 6, 12-13; Lc 9,18; Lc 9, 28s; Lc 11,1; Lc 24,30). Por isso, sua oração mostra que ele é Profeta e Filho, em diálogo constante com o Pai. Ele ora como Israel renovado, em quem a Aliança se cumpre. E sua oração é o lugar da revelação do amor entre o Pai e o Filho.
Não será isso o que os discípulos veem aí, no jeito de Jesus rezar: uma comunhão que também eles querem experimentar? Ou seria apenas insegurança já que o estilo de seguimento de Jesus era pouco marcado por fórmulas e exigências como os muitos de sua época? (“ensina-nos a rezar como também João ensinou…” – Lc 11, 1c). Tanto faz, pois Jesus atende ao pedido sem, contudo, ensinar fórmulas.
Jesus ensina a chamar Deus não de Altíssimo, Onipotente e Santíssimo, Senhor, como as fórmulas de sua época, colocando Deus distante e inacessível. Sua contra-fórmula é mais um convite a uma relação: a sermos filhos desse Deus que é Pai, e não qualquer pai. E a santificação de seu Nome tem a ver com a vinda de seu Reino. Deus é Santo, mas o reconhecimento de sua santidade é permitir que seu Reino se aproxime, se achegue e ganhe realidade em nosso meio. O Reino de Deus não é o reinado de um Senhor-Rei-distante, mas o de um Pai. Isso coloca Deus muito mais próximo.
E Jesus nos ensina a pedir o pão, esse essencial para a vida de todo ser humano. Ensina a preocupar-se, portanto, com as situações concretas, com a fome. E ao ensinar a pedir o pão de cada dia, recordando o maná (Cf. Ex 16) que não devia ser juntado e, então, ensina a evitar os acúmulos desnecessários. O pão nosso é o pão partilhado, solidário. Por isso, não é na autossuficiência, mas na confiança que o pão é nosso! Mais que ensinar uma fórmula, Jesus transmite um compromisso.
Compromisso com o pão nosso e com o perdão também, pois é com o perdão que se reabre a vida, as relações, os caminhos fechados pelas mágoas, ressentimentos e feridas. E o perdão de Deus nos compromete a perdoar também. Jesus não ensina uma fórmula, novamente, mas transmite um cuidado: o perdão é curativo e sana o que a vingança e a perpetuação das violências e represálias não pode sanar.
Depois, Ele ensina a rezar pedindo para não cairmos em tentação (em grego: peirasmós: prova da fidelidade/perseverança). É o pedido, então, para manter a perseverança, para não abandonar o caminho. Abandonar e desistir da proposta de Jesus é um risco que precisa ser combatido com a coragem. Rezar para não cair em tentação é rezar pela coragem de seguir!
Em seguida, as duas parábolas de Jesus buscam transmitir quem é esse Pai de quem ele nos fala: não é como o pai do patriarcado, mas é mais solícito e disponível que um amigo, e melhor que um pai terrestre.
E se é difícil rezar, Jesus nos lembra: o Pai nos dará não qualquer coisa, mas o que mais precisamos. O dom que devemos pedir é o dom dos dons, o doador dos dons, O Espírito Santo! É com esse Espírito que inclusive podemos nos achegar do jeito de Jesus rezar e se relacionar com Deus. É o Espírito, afinal, quem ajuda a rezar com Jesus, como Jesus e em Jesus.