Concílio de Nicéia

Nicéia no passado (325) e no presente (2025)

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Resumo

O artigo responde à pergunta “Quem é Jesus Cristo?” recordando Niceia (325): o Filho é consubstancial ao Pai (homoousios), verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Contra o arianismo — que reduzia Cristo a criatura excelsa — Atanásio argumenta que só Deus feito homem pode redimir; negar isso destrói a salvação e o mistério trinitário, com reflexos na fé, na Escritura, na Eucaristia e na própria Igreja. Niceia segue atual diante de reduções modernas de Jesus. Calcedônia (451) confirmou: uma só Pessoa em duas naturezas, sem confusão nem separação.

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Os cristãos arrostaram (enfrentaram, encararam) a morte por Cristo durante quase 300 anos. E agora surgia, ameaçadora diante da cristandade, a pergunta: Quem é Cristo? Torna a ecoar pelo espaço a pergunta dos judeus, em Jo 8,25: “Quem és tu?”. E o crente de hoje e de todos os tempos torna a encontrar-se face a face com esta mesma indagação: “Quem é Jesus Cristo?”.

O primeiro Concílio Ecumênico da Igreja ocorreu no ano de 325 em Nicéia, atual Isnik, na Turquia. Aí se reuniu a Igreja para responder aos hereges: Quem é Jesus Cristo?

Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem[1], responde a reflexão teológica com fundamento nas Sagradas Letras. Jesus Cristo é Deus, não há dúvida. Mas, como explicar o seu relacionamento com o Pai? Ocuparia posição abaixo do Pai?[2] Não foi ele em pessoa que declarou: “O Pai é maior do que eu”? (Jo 14,28). Precisamente aqui engrena o pensamento neoplatônico-estóico que procura interpretar o universo monisticamente, isto é, a partir de um único princípio fundamental[3]. Esse princípio supremo é inacessível, de maneira que não é autor direto da criação das coisas, do mundo material, mas, para tanto, apela a uma série de entidades espirituais intermediárias. Nessa doutrina Cristo poderia perfeitamente figurar como tal ente intermediário, naturalmente o mais elevado de todos, tanto mais porque se afirma que “por ele foi feito tudo” (Jo 1,3). Tais são, em síntese, as ideias desenvolvidas por Ario (†336), presbítero de Alexandria no Egito e discípulo do afamado Luciano de Antioquia[4]. Nessa concepção, Cristo não é Deus como o Pai, houve tempo em que ele não existiu[5]. Certamente, como Logos (isto é: Verbo, Palavra de Deus), revela, desde a sua criação[6], a glória do Pai; daí que pode ser considerado, sem mais, como Filho de Deus, não por natureza, mas por graça[7].

É preciso pensar nas vantagens que essa doutrina trazia consigo. Estava salvaguardada a unicidade[8] e a incompreensibilidade do Ser Supremo. Bem sabemos do dinamismo contido na simples expressão “o Um e Único”, a abarcar inclusive a esfera política. Compreende-se a força de expansão de Ario e dos seus adeptos (filoarianos). E também se torna claro o reflexo da ideia do Deus único sobre o sistema monárquico. Não foi sem motivo que os imperadores sentiram atração pelo sistema que fornecia fundamentação legítima para a sua onipotência (pontifex maximus). Além disso, surge, da parte da criação, o atrativo para o olhar que se volta para o mundo e o seu conteúdo. Foi uma espécie de aggiornamento sucedido já naqueles tempos. O cristianismo, confinado às catacumbas, passou três séculos banido do mundo. E eis que agora pode apossar-se desse mundo que o havia proscrito, pois “tudo foi feito por ele”. Não é difícil compreender o que se passava. Cristo seria um Deus subalterno[9], criatura, semelhante ao Pai quanto à natureza (em grego, homoiousios). E diziam: deixai-nos em paz com o vosso homoousios, com a sua igualdade em natureza, que, afinal, ninguém entende e que – notai-o bem! – não se encontra em parte alguma das Sagradas Escrituras (“Ora, a vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro…”: cf. Jo 17,3).

Está claro que continuava a vigorar a legítima doutrina eclesiástica com o mesmo vigor com que fora transmitida pelos apóstolos[10]. Não havia sombra de dúvida de que, desde sempre, Cristo é Deus como o Pai. São Paulo assim o reconhece “Cristo quanto à carne, que é Deus acima de tudo, bendito para sempre” (Rm 9,5). Não! Cristo não evoluiu até tornar-se Deus, mas já o foi no começo, desde o princípio, (“No princípio era [existia] o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus”: Jo 1,1), isto é, desde a eternidade foi o resplendor da glória de Deus e a imagem do seu ser (Hb 1,3). Tal era a fé professada no começo, tal continuava a ser a fé no ano de 313, quando Ario concentrou as atenções do mundo.

Deflagra-se, então, a disputa. A arena vê surgir um jovem diácono, Atanásio (295-373), o imortal, “pai da ortodoxia”, “gênio religioso da época”, que acompanhou o seu bispo Alexandre a quem mais tarde o sucedeu no episcopado. O imperador Constantino, que em fevereiro de 313, promulgara o edito de Milão[11] outorgando a liberdade completa aos cristãos, até ali alvo das perseguições, preocupa-se com a paz religiosa e política e convoca para Nicéia os bispos do orbe cristão. Corria o ano de 325. Estão presentes figuras impressionantes de bispos ao lado de teólogos subservientes da corte e muitos antístites (grandes sacerdotes) trazem vestígios de torturas e mutilações. O “milagre de Nicéia”, na expressão de Severiano de Gabala, dá-se aos 19 de julho[12]. E depois de longos e acirrados debates venceu o consubstancial o ‘homoousios’: o Filho é igual ao Pai em natureza. Nenhum Concílio, em tempo algum, tomou decisão que, mesmo de longe, fosse tão fundamental e rica em consequências. Mas nem por isso a luta havia terminado. Ao contrário, a borrasca recrudesce em violência. Torna a haver torturas, banimentos. Atanásio é exilado cinco vezes. Entretanto, estava firmada posição dogmática inabalável, como ponto de partida; chegará o dia em que todos, mesmo os adeptos do arianismo, professarão: “genitum, non factum, consubstantialem Patri” (gerado, não criado, consubstancial ao Pai). Mas, até lá escoar-se-ão alguns séculos.

Acima do mais, interessa saber que argumentos foram aduzidos contra Ario, além da doutrina tradicional da Igreja. Concentremos as atenções em Atanásio[13], ao qual coube desmascarar o perigo, por assim dizer, suicida para a fé cristã, perigo oculto no sistema aparentemente tão plausível de Ario. Realmente, Ario pretendia vir ao encontro da razão humana, e graças ao seu racionalismo, consegue satisfazer em grande parte, o pensamento superficial. Mas Atanásio objeta que com isto não alcançou nada, pois o homem continua a ser o que sempre tinha sido antes de Cristo: pobre, pecador, irredimido. Como poderia salvar-nos esse Cristo que é e continua sendo mero homem[14], nada obstante todas as elevações e todos os atavios com que o sobrecarregamos de atributos divinos? E escreve o grande Alexandrino: “Um ente criado não teria condições de ligar as criaturas com Deus, já que ele mesmo seria obrigado a buscar para si um elo interligador. De resto, uma parcela da criação não pode ser portadora da salvação para entes criados pela razão muito simples de também necessitar de salvação”. Ao desdobrar essas ponderações, Atanásio lança mão do seu trunfo maior, que sabia decisivo para a mentalidade dos coevos, a saber, o desejo de chegar a participar da divinização[15]. Atanásio sentia o perigo ameaçador. Ario destrói cruelmente o sonho antigo da Humanidade de ultrapassar-se a si mesma e alcançar o divino – “l’homme passe l’homme infinitement”, diria Pascal (“o homem sobrepuja infinitamente ao homem) – sonho concretizado por Cristo, já que o homem se torna participante da natureza divina (cf. 2Pd 1,4). Realmente, de que modo uma criatura, seja embora a mais elevada, poderia consumar essa ascensão para o seio da divindade? E o diácono Atanásio escreve: “Portanto Cristo não é o homem que posteriormente se tornou Deus, mas sim o Deus que depois se fez homem a fim de transformar-nos em deuses[16]. Este e outros muitos textos demonstram com clareza que também o arianismo gira em torno do homem e da salvação, mas na suposição de primeiramente girar em torno de Cristo e de responder à questão decisiva: “Quem és tu?” com a resposta de Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Para tornar ainda a Ario: O que, à primeira vista, poderia parecer vantagem – ao demais, só para espíritos superficiais – ou seja, que Ario descobriu a solução capaz de satisfazer a razão humana, desmascarava-se como terrível engano; porquanto a existência do homem mais a sua vocação para participar da divindade estão irremediavelmente perdidas. Mas ainda se escoariam muitos anos até que fosse definitivamente contornado esse perigo a ameaçar o cerne do cristianismo. E, ao falar em “definitivamente” afloram alguns problemas. Quando será conjurado o perigo, definitivamente? Jesus afirma que é preciso deixar crescer o joio até à ceifa no juízo final. Não estaria aí um, como que, leve aceno de que as heresias hão de pôr à mostra, sempre de novo, a sua virulência? E isto também vale com respeito ao arianismo. Esta é a razão por que Nicéia continua a ser de máxima atualidade, como veremos mais abaixo.

Por ocasião do Concílio de Nicéia a cristologia mais baixa[17] de Ario era mais primitiva do que a cristologia mais alta de Atanásio. Ario contentava-se com as formulações bíblicas da identidade de Jesus, por exemplo, “No começo era o Verbo” (Jo 1,1), o que significava para ele que o Verbo era o começo. Atanásio teve de persuadir o Concílio a aceitar fórmulas mais novas não-bíblicas, por exemplo, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, coeterno com o Pai. Mas ele o fez com perspicácia: as respostas da Escritura não eram mais adequadas, porque agora se tinha levantado questões que não tinham sido formuladas nos tempos do Novo Testamento[18], e as novas respostas que ele propunha eram verdadeiras na direção das Escrituras. A “ortodoxia”, portanto, não está sempre em poder daqueles que procuram apegar-se ao passado. Pode-se encontrar um critério mais verdadeiro na direção para a qual o pensamento cristão está tendendo, mesmo quando esta direção sugere que as formulações passadas da verdade têm de ser consideradas inadequadas para responder a novas questões.

Está claro que hoje em dia ninguém estará disposto a debater se o Pai é maior do que o Filho; nem debater sobre o problema do “gerado” ou “não gerado”; como também ninguém afirmará que o Filho se originou do nada, tal como costumava acontecer outrora em Constantinopla, consoante o atestado de S. Gregório Nazianzeno; ninguém mais aceita debater sobre a preexistência[19] do Filho. Mas o arianismo circula entre nós numa floração assustadoramente vasta e dá os ares de sua presença em todos os cantos, a repetir a pergunta: “Quem é esse Jesus Cristo?”. Não como se o homem moderno fora contra Cristo. Muito ao contrário, procura-se libertar a Cristo das incorreções e dos retoques, livrá-lo do leito de Procusto de uma teologia “esclerosada”. Quer-se descobri-lo, tal como foi na realidade[20]. Reserva-se-lhe lugar de honra entre os grandes vultos religiosos. Em Jesus, Deus faz a sua revelação máxima, em Jesus o humano alcança a sua última e mais sublime consumação. Quem julgar tudo isto muito abstrato tem o recurso de festejar em Jesus o revolucionário social e alinhá-lo com Karl Marx, Lenin e outros líderes mundiais conhecidos. E, já que a paródia evangélica de que Jesus foi vítima na corte de Herodes parece resumida demais, nada obsta a que se a desdobre para uma palhaçada caricatural e blasfema contida no filme “Jesus Superstar” ou na obra de Dan Brown, “O Código da Vinci”[21] (2004), que chegam a ser valorizados como autênticas obras de arte. Mais ainda: eis o que se lê em um livro de religião alemão destinado a crianças: “Chamam-no de Cristo ou de Filho de Deus. Isto é o mesmo que: Jesus vem de Deus, Deus falou por Jesus, Jesus era um com Deus, em Jesus podemos experimentar a Deus”. Tem razão a glosa para este texto: “Escamoteia-se a divindade de Cristo. Em parte não se acredita nela – mas então ainda poderemos pregar e ensinar? Em parte, fala-se de maneira tão confusa que não se sabe do que se trata – não seria mais simples e acessível às crianças a clareza de fé católica e da sua terminologia? Em parte, a divindade de Cristo deve ser explicada às crianças mais tarde – por que ocultar-lhes o que há de mais belo em Cristo?” Eis o que escreve certo manual de religião: “Também os homens de hoje debatem sobre quem é Jesus. Muitos são-lhe a favor, muitos são contra ele. Contem, crianças, o que já ouviram dizer sobre ele”.

É profundamente lastimável ver um teólogo declarar que é preciso indagar sempre o que se quer dizer ao afirmar que Jesus é o Filho de Deus[22]. No livro “Der göttliche Heiland” (“O divino Salvador”)[23] encontra-se a afirmação: “Redentor, Salvador, Messias, Filho de Deus não passam de títulos desse grande homem chamado Jesus”. Eis como se declarou a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé[24] no ano de 1972 a respeito de “alguns erros recentes quanto à fé no Filho de Deus feito homem”: “São claramente opostas à fé, as opiniões segundo as quais não nos foi revelado e nem se sabe que o Filho de Deus subsiste ab aeterno (desde a Eternidade), no mistério de Deus, distinto do Pai e do Espírito Santo; e, igualmente, as opiniões segundo as quais não tem sentido a afirmação de que Jesus Cristo tem uma só pessoa, gerada, antes dos séculos, pelo Pai, segundo a natureza divina, e, no tempo, de Maria Virgem, segundo a natureza humana; e por fim, a afirmação segunda a qual a humanidade de Jesus Cristo existe não como assumida na pessoa eterna do Filho de Deus, mas em si mesma, como pessoa humana, e, por conseguinte, o mistério de Jesus Cristo consiste no fato de Deus se revelar presente de um modo supremo na pessoa humana de Jesus. Aqueles que pensam assim estão longe da verdadeira fé em Cristo, mesmo quando afirmam que a singular presença de Deus em Jesus faz com que ele seja a expressão suprema e definitiva da revelação divina, e não recuperam a verdadeira fé na divindade de Cristo, quando acrescentam que Jesus pode ser chamado Deus porque Deus está sumamente presente naquela pessoa a que eles chamam a sua pessoa humana”. A Igreja pós-conciliar percebeu o enorme perigo que desvia de sua função a soteriologia, ou seja, a doutrina sobre a salvação, com reduzi-la a mera auto-redenção do homem, a dispensar, por supérflua, a ordem da graça, inclusive a própria Igreja.

Até aqui nossa atenção centrou-se na pessoa divino-humana do chamado Jesus histórico. Entretanto a heresia neoariana avança muito mais longe. Abrange não só o Logos ensarkós, o Cristo encarnado, mas o Logos enbiblós, quer dizer o Verbo que, por assim dizer, se encarna na Bíblia. Quem vê no Logos apenas uma criatura, também há de encarar a Sagrada Escritura como um mero produto criado por homens e épocas, não ligará nada para a inspiração dos livros sagrados e há de julgá-los dentro de critérios puramente científicos. Quem considerar o Logos como criatura, verá no logos eucharistikós apenas o pão sagrado e não a presença real e verdadeira do Deus e homem. Quem encarar o Logos como simples criatura, também verá na Igreja, corpo místico de Cristo, apenas uma criação sociológica a qual, logicamente, terá em vista objetivos meramente sociais. Tais são apenas alguns indícios que mostram as consequências que surgem onde se procura abalar o dogma central do cristianismo e abandonar, na prática, o símbolo niceno.

No entanto, impõe-se dar destaque maior a um ponto. No fundo, o arianismo destrói o mistério trinitário e torna-se, assim, coveiro da verdadeira religião. Pretende compreender racionalmente a relação do Filho com o Pai, ao tentar explicá-la por meio da pura razão. Isto pode parecer suficiente para um pensador superficial. Ao parecer, nada mais racional do que um Deus único que chama à existência todas as criaturas por meio duma entidade suprema, intermediária, criada por ele, a saber pelo Logos, criado pelo Pai. Ora, a verdadeira e lídima religião fica em pé e cai com o mistério, enquanto o racionalismo denota dissolução da religião. É o que estamos a presenciar a cada passo. A falta de respeito do nosso tempo origina-se, não por último, do fato de tudo parecer racional e factível. O símbolo niceno, pelo contrário, ao professar o “gerado, não criado”, abre o caminho para o mais alto e profundo mistério cristão. Geração sempre se realiza através do amor. Por isto foi lógico o desdobramento do processo histórico-espiritual ao incluir o Espírito Santo, Espírito de amor, no desenrolar dos debates arianos. Mas, que seria do mundo, se se perdesse o mistério da Trindade[25]? Toda a cultura cristã, sobretudo a do Ocidente, compreende-se à luz do mistério da Trindade. Um cristianismo ariano não sobreviveria ao ocaso da cultura do mundo antigo, por ser estéril e improdutivo o seu conceito de Deus.

São mais trágicas ainda as consequências para a vida humana, caso se negue a divindade de Cristo. Já ouvimos que o próprio Atanásio chamara a atenção para os consectários soteriológicos. Se Cristo não é Deus, também não somos homens redimidos. E Mauriac teria razão ao afirmar: “A vida é sombria”, e Newman estaria com razão ao dizer: “O mundo é tenebroso”. Realmente, como não seria sombrio e ermo tudo, se o sol Cristo não brilhasse mais? Donde provém a queda do nada com a terrível paralisação das nossas forças, com o temor diante do futuro e com a desesperada grita de uma Humanidade que não sabe mais como sair do beco? Certamente, provém do fato de ter-se despedido a Cristo que, nem por isto, deixa de ser a vida, inclusive dos povos. E note-se: Cristo como Deus e homem, como Filho de Deus, igual ao Pai em natureza, e não um Cristo como superstar. Quem, em teimosia pueril, julga-se capaz de abrir mão de Cristo e de salvar-se com os próprios recursos, quem sonhar com uma teologia de libertação, de revolução, depressa descobrirá que a estrada está bloqueada pela resignação e pelo desespero, pelo caos e pelo nada. É curioso o quão atual se torna também Pelágio (pelo ano 400), monge inglês, que negou o pecado original, que deu à vontade humana a precedência sobre a graça e que viu em Cristo apenas o mestre e exemplo capaz de facilitar-nos o cumprimento dos mandamentos. Pelágio é Ario transferido para a área soteriológica; exatamente como Ario, um racionalista do mais puro quilate. Precisamos do Deus e homem Jesus, já por nossa própria causa: “Senhor, salvai-nos, pois perecemos!” (Mt 8,25). Quem nos pode salvar não é um semideus “entronizado pelo nosso entusiasmo”, muito menos um princípio cósmico, mas um Deus igual ao Pai em natureza, que “desceu para nossa salvação e se tornou homem” (cf. Jo 1,1; Símbolo niceno-constantinopolitano).

Com isso já nos encontramos dentro do texto do Símbolo de Nicéia, elaborado dia 19 de junho de 325. Três observações conclusivas devem ser feitas.

  1. Hoje está na moda deixar de lado a tradição eclesiástica e começar da estaca zero. Nicéia é a afirmação clara e decidida da tradição eclesiástica. Os 318 padres conciliares não estavam mais em contato direto e imediato com Cristo e com os apóstolos. Nada obstante, estavam cientes de exprimir solenemente a inabalável verdade sobre Cristo, Deus e homem. Nicéia continua a obrigar hoje ainda.
  2. Hoje tornou-se moda apresentar as formulações dogmáticas como condicionadas ao tempo, como fórmulas que não excluem o reexame com vistas a alterar para melhor. O decisivo é o conteúdo e não a formulação. Em si está certo. Mas existem situações em que tudo depende de uma letra e o “i” em homoiousios[26] (que os arianos moderados estavam dispostos a conceder, dizendo ser o Filho de natureza semelhante ao Pai) rasga abismo intransponível entre verdade e erro. Nicéia ensina serem inevitáveis conceitos claros e explícitos. Para a fé até um “i” pode ser decisivo e por causa desse “i” (de que o Senhor nos fala em Mt 5,18) os adeptos de Nicéia arrostaram cárcere e banimento. Nenhum dos que falam em desgaste do termo, conseguiu, até hoje, apresentar outro capaz de expressar melhor o significado de homoousios, a saber, a igualdade de natureza do Filho com o Pai.
  3. Também hoje tornou-se moda dispensar qualquer tipo de condenação e desculpar todas as opiniões erradas com a bela palavra “pluralismo”. Em contrapartida, eis o que ensina Nicéia: “Os que afirmam que houve época em que o Filho não existia, e que ele não existiu antes de ter sido gerado, que foi tirado do nada ou de outra substância ou entidade, ou ainda que o Filho de Deus é mutável: todos esses são excluídos pela Igreja Católica e apostólica”. Com isso Nicéia salvou a Igreja e o Cristianismo.

A Igreja oriental celebra anualmente a festa do santo padre de Nicéia[27], no 6º Domingo depois da Páscoa, desse padre que “aniquilou a doutrina ímpia do malvado Ario, em sentido cristão, que expulsou o herege do seio da Igreja católica. Todos os padres conciliares ensinam claramente a professar o Filho de Deus como igual ao Pai em natureza e eternidade, a existir antes dos tempos (preexistência do Filho: cf. Jo 1,1), ao expor com exatidão em sua profissão de fé”.

A profissão de fé dos padres presentes em Nicéia está contida no “símbolo niceno”, posteriormente completado no Concílio de Constantinopla em 381 e ainda hoje em uso na liturgia[28]. Símbolo, em sentido original significa “composição, ajuntamento, fusão, síntese”. Daí, Cristo é símbolo a congraçar em si a natureza divina e a humanidade; declarar-se por Cristo continua sendo a grande força unificante contra o mal. Por essa razão, a comemoração dos 1700 anos do primeiro Concílio da Igreja é oferta da graça da parte de Deus, que não se deve recusar. Os tempos de hoje chamam-nos de contínuo ao pé da cruz de Cristo, Senhor único da Igreja.

Mas no que foi dito acima não se encerra a verdadeira compreensão de quem é Cristo. Diante de tais erros convém recordar que o Concílio de Calcedônia (IV Ecumênico, em 451) professou que o Filho de Deus foi gerado pelo Pai segundo sua divindade, antes de todos os séculos, e nasceu no tempo da Virgem Maria, segundo sua humanidade[29]. Além disso, este mesmo Concílio chamou ao único e mesmo Cristo Filho de Deus, pessoa ou hipóstase, e empregou, por outro lado, o termo natureza para designar sua divindade e sua humanidade. Com estes nomes ensinou que na única pessoa de nosso Redentor unem-se as duas naturezas, divina e humana, sem confusão, sem alteração, sem mudança, sem divisão e sem separação. Do mesmo modo, o Concílio Lateranense IV (XII Ecumênico, em 1215) ensinou a crer e a professar que o Unigênito Filho de Deus, coeterno com o Pai, fez-se verdadeiro homem e é uma só pessoa nas duas naturezas.

Prof. Diác. Everaldo Ribeiro Franco

 

[1] A cristologia joanina nutriu um monofisitismo inconsciente muito difundido, popular ainda hoje, no qual Jesus não é realmente como nós em todas as coisas, menos no pecado (cf. Hb 4,15), mas onisciente, incapaz de sofrer ou ser tentado, capaz de prever as coisas futuras. Ao mesmo tempo, a cristologia joanina foi a coluna principal da grande doutrina ortodoxa de Nicéia. [Segundo Orígenes nenhum destes – Paulo, Mateus, Marcos, Lucas – declarou abertamente a divindade de Jesus, como João, quando ele fez que o Senhor dissesse: “Eu sou a luz do mundo”; “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”; “Eu sou a ressurreição”.] E a Grande Igreja, “a Igreja católica” da linguagem inaciana, consciente ou inconscientemente, escolheu viver em estado de tensão: escolheu não um Jesus, que é Deus ou homem, mas ambos; ela não escolheu um Jesus que é ou virginalmente concebido como Filho de Deus ou preexistente como Filho de Deus, mas ambos; não um Espírito que é dado a um magistério de ensinamento autoritário, ou um mestre-Paráclito que é dado a cada cristão, mas ambos; não um Pedro, ou um Discípulo Amado, mas ambos. É preciso dizer ainda, que na cristandade primitiva não havia disputas sobre a humanidade de Jesus: os que o viram viver e morrer não teriam tido nenhuma razão de questionar sua humanidade, e os judeus nunca a negaram (“Sendo apenas homem, tu te fazes Deus”: Jo 10,33; cf. Jo 2,10; 4,29; 5,12; 7,46; 9,11; 9,16; 9,244; 9,33; 11,47; 11,50; 18,17; 18,29). O problema para os cristãos era chegar a entender a relação do homem Jesus com Deus (sua divindade). Somente depois que vieram a crer na divindade de Jesus sua humanidade se tornou um problema para os cristãos.

[2] É claro que Jesus nunca andou pelos caminhos da Galiléia com uma auréola na cabeça e cercado de um halo brilhante. Foi um homem como os outros: os Evangelhos o apresentam cansado e sedento, abatido pelo tédio e tentado, indistinguível entre a multidão, tratado até como um fanático e agitador: “Não te lapidamos por causa de uma boa obra, mas por blasfêmia, porque, sendo apenas homem, tu te fazes Deus” (Jo 10,33; cf. Jo 8,58-59; 19,7). Ao jovem rico, que o chama “Bom Mestre”, Jesus responde: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão só Deus” (Mc 10,18). No entanto, para a cristologia de Nicéia o Pai não é maior que o Filho, e Nicéia não fez de Jesus um rival de Deus.

[3] Uma questão fundamental presente ao pensamento na época era resolver o problema da relação entre Deus e o mundo. Para tal havia se introduzido a noção de um ser intermediário, capaz de preencher o abismo que separa a realidade divina (transcendente e imutável) do cosmo mutável e finito.

[4] Padre erudito, fundador, segundo a tradição, da escola exegética de Antioquia.

[5] Ario divulgou a sua doutrina de que o Pai é o único e verdadeiro Deus, eterno e sem princípio. O Filho, dizia, recebeu sua existência antes das demais criaturas, mas não é eterno, porque, se é Filho do Pai, tem de ser posterior a ele. Tampouco pode ter a mesma natureza que o Pai, porque isso seria incompatível com a unidade e unicidade de Deus.

[6] Veja o Símbolo Niceno-constantinopolitano: “[…] gerado, não criado, […]”. A geração é o modo como o Filho (preexistente) procede do Pai, e quer dizer que não foi criado “do nada” e que, portanto, é “essencialmente igual” ao Pai. A geração do Filho não é, porém, um acontecimento temporal, pois na verdade representa um processo eterno que tem lugar dentro do ser eterno de Deus. A geração é um mistério inenarrável, só conhecido do Pai que gerou (veja p. 242 in Dogmática Católica, Gerhard Ludwig Müller).

[7] Cerinto, gnóstico [os gnósticos (filósofos gregos) acreditavam que “a salvação vem pelo conhecimento” (gnose = conhecimento)] do fim do século I, foi, segundo S. Irineu, o criador da teoria adocionista: “Depois do batismo de Jesus, o Logos, descendo do seu Poder, que está acima de tudo, desceu sobre ele [Jesus] em forma de uma pomba (cf. Mc 1,9-11)… Mas, no fim, o Logos se retirou de novo de Jesus… o Logos, sendo espiritual, ficou incapaz de sofrer”. Tem-se argumentado que 1Jo 5,6 se destinava a refutar esta teoria.

[8] A Teologia ariana sublinhava a absoluta unidade (reportando-se a Jo 17,3) e transcendência de Deus: só Deus é “princípio não-gerado” e a essência da divindade não pode ser dividida e comunicada aos outros.

A partir de Platão, passando por Plotino, Agostinho, pela filosofia medieval subordinada à Teologia Escolástica e por alguns místicos, assumiu-se na Igreja Católica o princípio da unicidade e veracidade do ser. Tudo o que realmente existe é uno e verdadeiro, é belo e bom (Omne ens est unum, verum, pulchrum et bonum). Em tudo o que é dividido pode-se pressupor uma falta de ser, uma deficiência ontológica, uma falta de veracidade, de beleza e de bondade. Portanto, a “verdade absoluta” da fé é única e universal.

[9] A isto chamou-se subordinacionismo ontológico. Em sentido estrito, é a negação da divindade do Filho, e, por consequência, do Espírito Santo, característica do arianismo. Como “criatura” é superior a todas as outras; como estas, porém, foi tirado do nada e, portanto, teve um princípio. Logo “houve um tempo em que ele não existia”.

[10] É verdade que os apóstolos não reconheceram a condição divina de Jesus antes da ressurreição (cf. At 2,36; Jo 20,28). Assim o admitiu até a Pontifícia Comissão Bíblica na sua Instrução sobre a verdade histórica dos Evangelhos de 21 de abril de 1964. Mas isso não significa que tal condição não existisse até então. A ressurreição não fez mais que manifestar publicamente o que Jesus já era antes.

[11] Este edito concede aos cristãos a liberdade de culto e a restituição dos seus bens. Inicia-se a era da cristandade, ou seja, da cristianização pública da sociedade. A cristandade se caracterizou pelo fato de que um indivíduo tornava-se cristão por ser súdito do Imperador.

[12] Segundo o testemunho de Atanásio, a data não fora aposta ao Símbolo pelos padres conciliares. Contudo, no Chronicum Alexandrinum, bem como no exemplar do Símbolo lido no IV Concílio de Calcedônia constava a data de 19 de junho de 325, com a participação de 318 padres conciliares.

[13] Atanásio era diácono em 325 quando acompanhou seu bispo, Alexandre, ao Concílio de Nicéia. Sucedeu-lhe na Sé episcopal de Alexandria, em 328, e tornou-se o campeão da luta contra o arianismo.

[14] A disputa doutrinária em questão dizia respeito ao problema do relacionamento entre o Filho ou Logos de Deus e Deus Pai, que vinha se arrastando há mais de dois séculos, especialmente no seio do cristianismo oriental. Declarando o Crucificado e o Ressuscitado como a mesma pessoa do Logos – em comunhão com o Pai desde toda a eternidade e artífice junto com ele, da obra da criação – nascia a exigência de se explicar os termos dessa relação. Entre as várias tentativas, vinha se impondo um modelo cristológico que adotava do Evangelho de João o conceito de Logos da filosofia helenista.

[15] O destino do homem é sua divinização ou – dito em termos neotestamentários – seu ser em Cristo. “Sereis como deuses” (Gn 3,5); mesmo posta na boca da serpente, nem por isso esta promessa é menos veraz. A encarnação do Verbo autentica este propósito divino: como reza a célebre sentença patrística, “Deus se humanizou para que o homem seja divinizado”.

[16] (Maria não deu à luz um ser humano com o qual posteriormente se uniu o Logos, mas deu à luz a pessoa do Logos na natureza humana que assumiu a partir dela). Em outra linguagem: Jesus não é o homem sobre o qual veio o Verbo divino, mas é o Verbo que na plenitude do tempo se tornou homem: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós” (Jo 1,14). “Jesus é o Logos enviado do céu ao seio da Virgem, no qual se tornou carne” (Oração Eucarística de Hipólito: cf. Mysterium Salutis, IV/5, p. 33). Assim, o Logos divino se tornou acessível em Jesus.

[17] Na linguagem dos comentaristas “baixa” cristologia envolve a aplicação a Jesus de títulos derivados do Antigo Testamento ou expectativas intertestamentárias (por exemplo, Messias, profeta, servo, senhor, Filho de Deus) – títulos que em si não implicam divindade. (“Filho de Deus” significando representante divino, era uma designação do rei: veja 2Sm 7,14; “senhor” não precisava significar mais que “chefe”). “Alta” ou “Elevada” cristologia envolve uma apreciação de Jesus que o coloca na esfera da divindade, expressa, por exemplo, num emprego mais exaltado de Senhor e Filho de Deus, assim como a designação “Deus” (cf. Jo 20,28). Outro exemplo de cristologia elevada se encontra no início do Evangelho de João (Jo 1,1) e na 1Jo 1,1-3, ambos os textos a nos falar da preexistência do Logos, que nunca aparece nem mesmo nós lábios de Jesus nos outros Evangelhos. Devo lembrar aos leitores, que “os Evangelhos nos falam como cada evangelista concebia Jesus e o apresentava a uma comunidade cristã no último quartel do primeiro século” (cf. p. 15, in A Comunidade do Discípulo Amado, por R. E. Brown, Paulus).

[18] Por exemplo: Como se dá a união das duas naturezas (humana e divina) numa só Pessoa? A isto, mais tarde, respondeu o Concílio de Calcedônia em 451 (cf. Catecismo da Igreja Católica 467).

[19] De fato, se Jesus é Deus, seria absurdo que ele tivesse começado a existir no tempo de Herodes, o Grande. Não é possível confessar a divindade de Jesus sem afirmar simultaneamente sua preexistência antes de nascer de Maria. A idéia da preexistência de Cristo apareceu muito cedo. Seu primeiro testemunho escrito é o famoso hino da Epístola aos Filipenses (Fl 2,6-11), que é, sem dúvida, anterior a Paulo.

[20] Nunca se realizou tantas pesquisas sobre o Jesus histórico. Os investigadores atuais oferecem sete imagens distintas do Jesus histórico: Jesus, um judeu marginal; um profeta escatológico; um profeta da mudança social; um sábio ou a sabedoria de Deus; um ser humano do espírito; um filósofo cínico itinerante e um campesino judeu.

[21] Nesta obra o que Brown faz é sistematicamente desconstruir o que, por dois milênios, tem sido patrimônio espiritual de cristãos de todas as tradições, no Oriente e no Ocidente. Contra posições semelhantes à de Brown, C. S. Lewis argumentou com a clareza e a objetividade que lhe eram peculiares: Um homem que fosse só homem, e dissesse as coisas que Jesus disse, não seria um grande mestre da moral: seria ou um lunático, em pé de igualdade com quem diz ser um ovo cozido, ou seria o Demônio. Cada um de nós tem que optar por uma das alternativas possíveis. Ou este homem era, e é Filho de Deus, ou então foi um louco, ou algo pior. Podemos contra-argumentá-lo taxando-o de louco, ou cuspir nele e matá-lo como um demônio. Ou podemos cair a seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas não venhamos com nenhuma bobagem paternalista sobre Ele ser um grande mestre humano. Ele não nos deu esta escolha. Nem nunca pretendeu (C. S. LEWIS, Cristianismo puro e simples, São Paulo: WMF Editora, 2014, p. 69s).

[22] É o que fez, dentre muitos, outros, o padre jesuíta da Índia, Anthony de Mello (cf. Notificação sobre os escritos do padre Anthony de Mello, SJ, in p. 428-429 Documenta da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé).

[23] Ver opúsculo p. 9-10 in Nicéia no passado e no presente, por Rudolf Graber.

[24] Declaração sobre a salvaguarda da fé em alguns erros recentes sobre os mistérios da Encarnação e da Santíssima Trindade, 21 de fevereiro de 1972, in Documenta da Congregação para a Doutrina da Fé, CNBB.

[25] “O mistério da Santíssima Trindade e o mistério central da fé e da vida cristã. É a fonte de todos os outros mistérios da fé, é a luz que os ilumina” (Catecismo da Igreja Católica 234).

Mía ousía, treis ùpostáseis: uma substância, três subsistências (una substantia, tres subsistentiae) ou uma essência (homoousios = consubstancial) e três maneiras de existir que são as três Pessoas da Santíssima Trindade.

[26] Daí “a bem conhecida ironia de que a cristandade se viu abalada em seus fundamentos por culpa de um ditongo” (Cozens, M. L., Manual de herejias, Herder, Barcelona, 1964, p. 52).

[27] A Igreja latina celebra sua memória litúrgica, como bispo e doutor da Igreja, em 2 de maio.

[28] Cf. Catecismo da Igreja Católica 242.

[29] O Concílio de Constantinopla II, no cânon 7 assim se expressou: “Nem o Verbo se transformou na natureza da carne, nem a carne passou à natureza do Verbo” (Dz 219). E o IV Concílio Ecumênico de Calcedônia, que definiu o dogma cristológico (“Cristo é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem”), confessou em 451, que Cristo “deve ser reconhecido em duas naturezas, sem confusão, sem mudanças, sem divisão, sem separação. A diferença das naturezas não é de modo algum suprimida pela sua união, mas antes as propriedades de cada uma são salvaguardadas e reunidas em uma só pessoa e uma só hipóstase” (DS 301-302).

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