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Introdução
Embora o instinto dos fiéis e a intuição dos místicos contribuíram muito para o desenvolvimento da doutrina católica sobre Nossa Senhora, sua fonte principal entretanto é a Sagrada Escritura, pois essa “deve ser como que a alma de toda a Teologia” (OT 16; DV 24). Assim o discurso de fé sobre a Mãe do Senhor tem como fundamento, conteúdo e norma o que a Palavra de Deus diz em torno dela; pôr-se à escuta da Escritura é pois a condição necessária da Mariologia.
É verdade que o instinto dos fiéis foi marcante no desenvolvimento da Mariologia, sempre menos controlado pela sobriedade do dado bíblico e pelo rigor do conceito. Enquanto a Teologia movia-se sempre mais no terreno do racionalismo, não estando em condições de satisfazer as energias emocionais do homem, o povo fiel se pôs à procura de uma criatura humana em cuja companhia pudesse percorrer a via difícil que leva a Deus. Quem poderia satisfazer a esse escopo senão a Mãe de Deus, que é uma criatura humana plena e perfeita? “Maria, Mãe de Jesus, Mãe de Deus, assumiu um papel magnífico na piedade como bela Virgem, Mãe misericordiosa e poderosa Rainha do céu e da terra […]. Cresceu a convicção de que ela estava vinculada com a misericórdia para com o pecador desgraçado diante da severa justiça de Cristo. […] Sentia-se que havia uma necessidade de mediadores humanos que estivessem mais próximos dos humildes e dos pecadores indignos do que estava o magnificente Salvador e justo Juiz, Jesus Cristo”[1] (Teologia Sistemática – perspectivas católico-romanas, vol.2, Francis S. Fiorenza e John P. Galvin, Paulus).
Contra essa impostação reage a renovação teológica do século XX, esta mais refletida e mais doutrinal. O retorno às fontes bíblicas, patrísticas e litúrgicas é fundamental para uma reflexão sobre Maria mais fiel ao dado normativo da Escritura, mais atenta à totalidade da história da salvação e mais ligada à solidez objetiva da piedade litúrgica perante o subjetivismo das devoções particulares. É S. Tomás que nos dá como critério: “As coisas que dependem unicamente da vontade de Deus […] não podemos conhecê-las a não ser pela Escritura”.
É, pois, nessa perspectiva que vamos percorrer as referências bíblicas à Mãe de Jesus Cristo que não aparecem muito numerosas – são ao todo uns cinqüenta versículos no Novo Testamento – mas têm grande expressividade, encerrando os germes de toda a Mariologia.
A sobriedade em Paulo
A figura de Maria aparece no cânon neotestamentário somente nas porções narrativas dos Evangelhos e na narrativa lucana, nos moldes dos Evangelhos, em At 1,12-14. Os textos paulinos contêm uma cristologia e uma eclesiologia magníficas, mas carecem de alusões à Virgem. Chama especial atenção o fato de que São Paulo se refere uma só vez a Maria, quando faz referência à mulher da qual nasceu o Filho de Deus, em Gl 4,4-5, que é o mais antigo testemunho do Novo Testamento concernente a Maria[2].
4Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a Lei, 5para remir os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial.
Nesses versículos, o que Paulo visa acima de tudo é relacionar a redenção e a filiação adotiva (e nossa qualidade de herdeiros) com determinado instante da salvação, a saber, o momento em que Jesus tornou-se membro da humanidade e da raça judia. Assim a análise do texto mostra a sua perspectiva histórico-salvífica: Deus, o Pai, enviou seu Filho “quando chegou a plenitude do tempo”. Essa expressão não significa só cumprimento cronológico, mas exprime muito mais a densidade escatológica do evento: há amadurecimento e progresso na história da salvação, chegados ao ponto culminante, que é ao mesmo tempo início inaudito e novo (cf. Mc 1,15) e que está – segundo “os tempos e os momentos que o Pai fixou com sua própria autoridade” (At 1,7) – entre o tempo da preparação e da espera (cf. Hb 1,1) e os últimos tempos (cf. 1Tm 4,1) do dia escatológico e do juízo final (cf. 1Cor 1,8; Rm 2,5). Então a “plenitude dos tempos” não é tanto o “centro cronológico” da história quanto seu “centro escatológico”, o valor ultimativo, definitivo de todos os tempos, o coração do mistério, em relação ao qual tudo se mede e se esclarece em sua verdadeira consistência em todos os tempos. Essa interpretação é confirmada pela idéia do envio do Filho de Deus (cf. Rm 8,3-4; Jo 3,16; 1Jo 4,9). Com relação à expressão “nascido de uma mulher, nascido sob a Lei”, essa fórmula quer indicar a humanidade do Redentor e sua relação com Israel: Jesus é verdadeiro homem; como todos os seres humanos, ele é nascido de mulher. Igualmente, indica a humilhação à qual o Filho se submeteu, de Senhor fazendo-se servo (cf. Fl 2,5-8), para tornar senhor o servo, livre o escravo da Lei (“a fim de que recebêssemos a adoção filial”).
Por fim, o fato de que São Paulo se refere só uma vez a Maria pode ser explicado pelas intenções de suas cartas que visavam apenas a esclarecer problemas nas comunidades dos fiéis.
Maria no Evangelho de Marcos
A pregação missionária dos apóstolos não visava, nos primeiros dias e de maneira direta, Maria e seu papel na obra da salvação. A julgarmos pelo discurso de Pedro (At 1,22) começava “do batismo de João até o dia em que de nós foi arrebatado” o Senhor Jesus. Versava sobre a vida pública e messiânica do Senhor, culminada em sua Ascensão. Por isso o testemunho bíblico sobre Maria é sóbrio e denso ao mesmo tempo. A sobriedade induz a se renunciar a qualquer “vida de Maria” que pretenda reconstruir sua figura histórica em pormenores e interpretar sua psicologia, pois sabemos perfeitamente que esse testemunho bíblico deriva de escritos que pretendem comunicar a fé em Jesus ressuscitado; a densidade testemunha que tudo o que é dito dela na Escritura é marcado e filtrado pela experiência pascal dos primeiros testemunhos da fé[3]. E o Evangelho de Marcos reflete esse estágio mais antigo da tradição, por ser o mais antigo dos escritos evangélicos.
Escrito antes da destruição de Jerusalém em 70 d.C. – como indica o tom genérico do discurso escatológico do capítulo 13 em relação aos outros sinóticos – e provavelmente não antes da morte de Pedro e Paulo (por volta de 64 d.C.), se aceitarmos o testemunho de Irineu[4], o Evangelho de Marcos apresenta apenas uma cena em que Maria aparece (Mc 3,31-35), e uma outra na qual ela é claramente mencionada (Mc 6,3).
Leiamos o primeiro texto:
31Chegaram então sua mãe e seus irmãos e, ficando do lado de fora, mandaram chamá-lo. 32Havia uma multidão sentada em torno dele. Disseram-lhe: “Eis que tua mãe, teus irmãos e tuas irmãs estão lá fora e te procuram”. 33Ele perguntou: “Quem é minha mãe e meus irmãos?” 34E, repassando com o olhar os que estavam sentados ao seu redor, disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. 35Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe”.
A interpretação desse texto é condicionada pela sua eventual conexão com os versículos 20 e 21 que o precedem:
20E voltou para casa. E de novo a multidão se apinhou, de tal modo que eles não podiam se alimentar. 21E quando os seus tomaram conhecimento disso, saíram para detê-lo, porque diziam: “Enlouqueceu!”
Se se aceita a conexão, a Mãe de Jesus pertenceria àqueles seus que queriam detê-lo, pois pensaram que ele enlouquecera. O Evangelho de João também reflete os sinóticos: “Pois nem mesmo os irmãos criam nele” (Jo 7,5). Maria estaria assim envolvida na iniciativa de sair para deter Jesus e no juízo: “Está fora de si”[5]. Em caso contrário, teria referência a Maria só o texto que afirma a prioridade do discipulado sobre qualquer relação, inclusive de sangue (v.35).
Qual o sentido literal desses textos? Os seus, isto é, os familiares de Jesus, diante do entusiasmo incontrolado da multidão (v.20), foram “detê-lo”. O termo grego kratéo não exprime aqui uma intenção de violência, mas forte apreensão dos seus. Por outro lado, o termo enlouqueceu (v.21) alude propriamente não a uma verdadeira loucura, mas a uma estranheza de comportamento que suscita preocupação. A idéia que emerge é a de que os familiares foram para reter, moderar Jesus, e ele os convida a abandonarem lógicas demasiadamente humanas e a entrarem na lógica que inspira a sua vida, a da obediência ao Pai: “Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (v.35). A resposta de Jesus é assim um convite a que se transcenda a compreensão dos laços familiares segundo a carne, na perspectiva do Reino de Deus e da vida nova e eterna que ele vem anunciar. O plano da graça está acima do que se define pelas relações naturais. A família segundo a carne deve ceder lugar à família escatológica e é convidada a transformar-se nela[6].
Mas então, qual é o lugar da Mãe de Jesus em tudo isso? Que coisa nos diz dela esse episódio, dela e de sua relação com o Filho?
Ele parece mostrar um traço profundamente humano de Maria: como toda mãe, solícita pela sorte do filho, também ela se preocupou com ele, não sem a influência dos vários parentes junto com os quais acorreu ao local. Seria, talvez, indigno atribuir esse comportamento à Virgem Mãe? Absolutamente, se considerarmos seriamente os dados bíblicos concernentes ao progresso da fé em Maria. Por isso Lucas diz dela: “Maria, contudo, conservava cuidadosamente todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração” (Lc 2,19); “[…] Sua mãe, porém, conservava a lembrança de todos esses fatos em seu coração” (Lc 2,51). Inicialmente ela mesma pode ter nutrido preocupações ainda muito humanas a respeito da missão e da obra de seu Filho. Também para a Mãe era necessário avançar no caminho da fé (cf. LG 58). Se até ela teve que caminhar pelo itinerário da fé, como não terão de fazê-lo todos os seguidores do Nazareno, ainda que pertencentes à sua família segundo a carne? A Mãe, na humildade e na fadiga tão autenticamente humanas de sua peregrinação interior, já sobressai como figura exemplar do discípulo. O trecho de Marcos oferece assim, junto com precioso dado histórico pré-pascal – o testemunho sobre a humanidade tão materna de Maria, sobre seus humildes laços de parentesco, que a faziam pobre entre os pobres, e sobre seu caminho de fé – alguns primeiros elementos de releitura pascal.
A perícope Mc 6,1-6 traz:
1Saindo dali, foi para a sua pátria e os seus discípulos o seguiram. 2Vindo o sábado, começou ele a ensinar na sinagoga e numerosos ouvintes ficavam maravilhados, dizendo: “De onde lhe vem tudo isto? E que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais milagres por suas mãos? 3Não é este o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, Joset, Judas e Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?” E escandalizavam-se dele. 4E Jesus lhes dizia: “Um profeta só é desprezado em sua pátria, em sua parentela e em sua casa”. 5E não podia realizar ali nenhum milagre, a não ser algumas curas de enfermos, impondo-lhes as mãos. 6E admirou-se da incredulidade deles.
Marcos 6,3 se insere no contexto da pregação de Jesus na sinagoga de Nazaré, a qual suscitou estupor entre os ouvintes (v.2) e os fez exclamar as palavras referentes a Maria (v.3). É um estupor que se torna escândalo[7] e provoca a observação amarga de Jesus (v.4). A expressão “o filho de Maria” é insólita, única no Novo Testamento: os paralelos de Mt 13,55 e Lc 4,22 falam respectivamente do Nazareno como “filho do carpinteiro”, cuja mãe é Maria, e como “filho de José” (cf. também Lc 3,23, bem como Jo 1,45 e 6,42). Cumpre então compreender por que Jesus é chamado em Marcos “o filho de Maria”, contra o uso bíblico que designa um filho com o nome do pai. A hipótese mais provável vê na afirmação uma referência ao fato possível de que José já tivesse morrido, ou a comentários malévolos, que poderiam ter circulado, dos quais seria eco a afirmação de alguns judeus em Jo 8,41: “Nós não nascemos da prostituição […]”, com um “nós” enfático, que queria dizer: “à diferença de ti”. Em conclusão, com referência a Maria, o trecho deixa transparecer que ela estava incluída na animosidade que cercava seu Filho entre seus conterrâneos, que não conseguem dar conta da sua condição divina: é outro aspecto de sua vida, vivida à sombra de Jesus e por isso não poupada pela incompreensão, pela hostilidade e pelo juízo do qual ele foi objeto.
Resta, finalmente, aberta outra questão: que significado tem, em relação a Maria, o fato de o texto falar de seu Filho como sendo “irmão de Tiago, Joset, Judas e Simão”, e mencionar suas irmãs como conhecidas em Nazaré? Significa essa informação que Maria teve outros filhos? A resposta é negativa, e isso não somente em virtude da grande tradição cristã, que confessa a virgindade perpétua de Maria, mas sobretudo por causa de indicações exegéticas precisas. Nunca no Novo Testamento os “irmãos” e as “irmãs” de Jesus são apresentados como “filhos de Maria”. Voltaremos a essa questão no momento oportuno, quando do desenvolvimento dogmático de um dos dogmas marianos.
Até aqui chega Marcos.
Prof. Diác. Everaldo Ribeiro Franco
[1] O excesso muitas vezes atribuído à Mariologia em tempos passados vem compensar uma Cristologia “gloriosa” demais, que não sublinha suficientemente a humanidade de Cristo.
[2] A carta aos gálatas foi escrita provavelmente de Éfeso entre 54-55. Assim, cronologicamente, estamos diante de testemunho antiqüíssimo, muito próximo do primeiro início do movimento cristão. Nessa carta temos, assim, a primeira evocação histórica de Maria no Novo Testamento e a única em São Paulo. Paulo afirma que Cristo existia “em forma divina” antes de seu nascimento (cf. também Fl 2,6-7).
[3] Certamente não é possível tirar dos Evangelhos uma “biografia” de Maria, como não é possível, com base neles, reconstruir uma “biografia” de Jesus, dado seu caráter de testemunho pascal, que tende a reler em profundidade, com os olhos da fé, iluminados pela experiência do encontro com o Ressuscitado, somente os aspectos e os momentos do acontecimento pré-pascal que se mostram mais ricos de mensagem. Assim o que temos no Novo Testamento é a reflexão de fé desenvolvida pela Igreja apostólica sobre o acontecimento de Cristo, à luz da experiência pascal. Em outras palavras: os evangelistas rememoram o ministério de Jesus com o discernimento que haviam adquirido depois da ressurreição (cf. DV 19).
[4] O texto de Irineu é Adversus Haereses 3,10,6 in PG 7,878s.
[5] A essas razões de crítica interna poder-se-ia acrescentar o fato de que alguns códices dos séculos IV-VII em lugar de seus trazem escribas e outros, com a clara intenção apologética de excluir Maria do episódio, o que é sinal de que, na forma original do texto, ela era entendida como presente. Acrescente-se a isso que o Concílio Vaticano II no plano das afirmações doutrinais insiste na união da Mãe com seu Filho desde a concepção virginal até a morte de Cristo; não decide, porém, sobre a questão do conhecimento que Maria poderia ter da identidade divina de seu Filho (cf. nota 2 do capítulo 6). Note-se que o Vaticano II afirma que “o Concílio não tem em mente propor a doutrina completa sobre Maria, nem quer dirimir as questões ainda não trazidas à plena luz pelo trabalho dos teólogos. Mantêm-se por isso em seu direito as opiniões que nas escolas católicas se propõem livremente acerca daquela que na Santa Igreja ocupa o lugar mais alto depois de Cristo e o mais perto de nós” (LG 54; sobre o trabalho dos teólogos e a autoridade da Igreja, cf. DV 12). Mais ainda: os próprios Evangelhos, ao relatar a indignação da família de Jesus, salientam com vigor que os que estavam a seu redor não desconfiavam de forma nenhuma de sua identidade divina durante sua vida no vilarejo. O fato de o Filho de Deus enterrar-se na condição humana comum não manifesta de modo algum a transcendência que o habitava (cf. Fl 2,5-7). É interessante acrescentar que desde a Antigüidade, por volta de 180, o filósofo Celso tinha captado muito bem essa dificuldade: o Deus que os cristãos pregavam ou era um ídolo ou favorecia o ateísmo. Era, segundo ele, por demais humano para suportar a transcendência inerente à natureza divina. As decisões dos Concílios de Nicéia e de Calcedônia justificaram, mais tarde, a reação de Celso.
[6] Observe-se que Jesus não menciona pai. Parece implicar-se que na família escatológica, nenhum ser humano é pai de Jesus, pois Deus é seu pai (Mc 14,36; cf. Mt 23,9). Há quem veja também implicada a família física de Jesus, isto é, que ele não teve pai humano.
[7] John P. Meier em Um judeu marginal – repensando o Jesus histórico, comentando sobre a “educação e instrução judaicas no tempo de Jesus”, levanta a tese de que “além de José, o mais provável canal de instrução de Jesus seria a sinagoga de Nazaré […]. Se realmente Jesus recebeu sua primeira instrução nas Escrituras na sinagoga de Nazaré, é possível entender a atmosfera emocionalmente carregada que cercou o retorno do Jesus adulto àquela mesma sinagoga para ensinar a seus pares e aos mais velhos. A reação: ‘Quem ele pensa que é?’ torna-se bem compreensível”.