Mariologia

5. Maria no Novo Testamento A figura de Maria em Mateus     

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Resumo

O texto examina Maria em Mateus: na genealogia (1,1–17), Maria quebra o padrão “gerou”, sinalizando nova criação; em 1,18–25, a concepção virginal pelo Espírito e a filiação davídica por José cumprem Is 7,14 (“Emanuel”). Em 2,1–12, os magos homenageiam o Menino com sua mãe, indicando realeza e missão universal; em 2,13–23, o refrão “o menino e sua mãe” acompanha Jesus que recapitula o êxodo. Mateus privilegia a perspectiva de José e dá núcleo histórico com claro sentido teológico.

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Introdução

O Evangelho de Mateus parece datar do fim do século I, entre os anos de 80 e 90, adicionando-se ou subtraindo-se uma década[1]. Ele se esforça por enquadrar em ambiente judaico as narrativas, o material e os documentos que conseguiu recolher sobre a vida de Jesus, já elaborados e comentados no seio das Igrejas cristãs.

Nesse Evangelho podemos distinguir dois grupos de testemunhos sobre Maria: o primeiro, material próprio de Mateus[2], no âmbito das narrativas da infância de Jesus[3] (capítulos 1 e 2); o segundo, no contexto de seu ministério público (Mt 12,46-50; 13,55-57). Esse segundo grupo é paralelo aos textos de Marcos já examinados (Mc 3,31-35 – a questão de quem constitui a família de Jesus, e Mc 6,3 – a rejeição de Jesus em sua própria terra), com poucas diferenças: em Mt 13,55 Jesus é chamado “o filho do carpinteiro” – e não “o filho de Maria” como em Mc 6,3 – para sublinhar a descendência davídica, apesar de  mencionar sua mãe Maria imediatamente depois, evidentemente para lembrar a mensagem de Mt 1,18-25. É importante acrescentar que G. M. Verd, num amplo estudo, mostrou que toda a herança vinha pelo pai, e que não importava se o filho fosse natural ou adotivo. Por esse motivo o Evangelho de Mateus se situa mais na perspectiva de José[4] do que de Maria, ao contrário do Evangelho de Lucas[5]. Em Mt 12,46ss não encontramos a cena introdutória em torno de os “seus”, como em Mc 3,31ss, que pensam que ele estivesse fora de si (Mc 3,20-21), enquanto Mt 13,57 elimina a expressão “em sua parentela” presente em Mc 6,4 relativa àqueles entre os quais um profeta é desprezado[6]. Assim é sobretudo nas narrativas da infância que se encontra a contribuição mais original do Evangelho de Mateus relativamente a Maria.

É possível delinear a estrutura de Mt 1-2 em quatro unidades fundamentais[7]:

Mt 1,1-17: O Quis: Quem é Jesus? Qual é a sua identidade? Qual a sua gênese?;

Mt 1,18-25: O Quomodo: Como se configura essa gênese?;

Mt 2,1-12: O Ubi: Onde se verifica sua vinda no tempo?;

Mt 2,13-23: O Unde: Onde começa a sua missão?

Vejamos então, qual é o papel que Maria exerce em cada uma dessas unidades, ressaltando, porém, que a recusa do povo judeu em crer em Jesus, seu destino de paixão e morte, a abertura ao mundo pagão, até mesmo os fatos da comunidade cristã primitiva constituíam a perspectiva na qual foram elaborados os relatos da infância. Mais que os primeiros passos da vida do Senhor o objetivo era apresentar a diretriz e o sentido de sua missão no mundo. É pela primeira luz da aurora que se conhece o dia. Atualmente se julga que Mt 2, à parte as citações dos textos proféticos, remonte exatamente a este propósito teológico.

Mateus 1,1-17

A perícope em questão diz:

1Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão […] 16Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus chamado Cristo.

A primeira unidade se abre com a intitulação “Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (v.1), e prossegue com uma genealogia exaustiva e aparentemente desnecessária. À primeira vista, parece ser simplesmente uma lista de nomes dos antepassados de Jesus sem nenhum conteúdo teológico. Mas a genealogia introduz-nos tanto no campo da história como no da teologia[8]. Assim Mateus atende aos antepassados humanos deste homem Jesus, procurando enquadrá-lo na história da humanidade. Assim o Messias devia ser descendente de Davi, e a referência a Abraão mostra que a origem de Jesus coincide e remonta mesmo ao princípio de Israel. Esse início do Evangelho de Mateus lembra Gn 2,4 na tradução dos LXX: “Este é o livro da origem do céu e da terra”, e Gn 5,1: “Este é o livro da origem de Adão”. O paralelismo é evidente e parece significar que o nascimento de Jesus inaugura uma nova criação: ao primeiro Adão corresponde o segundo. Maria é o terreno do advento desse novo início do mundo: o Espírito, que pairou sobre as águas da primeira criação, concedendo existência e vida (cf. Gn 1,2), volta agora para operar na Virgem acolhedora (cf. Mt 1,18-20). O destaque dado à Mãe de Jesus na genealogia emerge, antes de tudo, na mudança do modelo literário usado até se chegar a ela: “Abraão gerou Isaac, Isaac gerou Jacó, Jacó gerou Judá […] Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus[9] chamado Cristo” (Mt 1,1-16)[10]. O motivo dessa mudança será esclarecido no estudo dos versículos de 18 a 25. E a presença de quatro mulheres do Antigo Testamento na genealogia – Tamar, Raab, Rute e Betsabéia (uma vítima da luxúria de Davi) “a mulher de Urias” – pode ser explicada pela intenção de preparar o caminho para o Espírito Santo operar e de sublinhar o papel de Maria: fato absolutamente insólito no judaísmo do tempo, ele prepara a narração da modalidade excepcional do nascimento do Messias, porque todas essas mulheres foram veículos do desígnio messiânico de Deus, apesar de caracterizadas por uniões matrimoniais irregulares. A qualidade de estrangeiras[11] e pecadoras quer sublinhar a gratuidade da eleição divina. O que Deus decide não resulta do mérito do homem, mas da vontade de Deus mesmo. Percebemos, assim, como Deus leva avante seus planos de salvação, apesar das debilidades e falhas humanas; vemos, também, que Jesus pertenceu a uma raça verdadeiramente pecadora, ligando-se a ela inclusive pelos laços de família. Fica evidente que até os excluídos são acolhidos por Deus como protagonistas do seu misterioso desígnio de salvação. Assim não é o mérito do homem que condiciona a Deus, mas é Deus quem chama e escolhe livre e gratuitamente[12]. Isso explica por que Mateus escolheu justamente essas e não outras mulheres, também significativas na história de Israel: a ação de Deus mediante modalidades humanamente “não regulares” é o que lhe interessa mostrar, a fim de preparar a narração das maravilhas operadas pelo Altíssimo na Virgem Mãe. Também em Maria tudo é graça: a sua escolha para ser a Mãe de Deus e todos os seus privilégios, que decorrem dessa maternidade. Da primeira unidade do texto de Mt 1-2 Maria emerge, pois, como o seio da nova criação, na qual o Deus da história da salvação age de maneira absolutamente gratuita e surpreendente. Essa maneira, apenas aflorada, é ilustrada na unidade seguinte.

Mateus 1,18-25

Na segunda unidade, Mt 1,18-25, temos:

18A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, comprometida em casamento com José, antes que coabitassem, achou-se grávida pelo Espírito Santo. 19José, seu esposo, sendo justo e não querendo denunciá-la publicamente, resolveu repudiá-la em segredo. 20Enquanto assim decidia, eis que o Anjo do Senhor manifestou-se a ele em sonho, dizendo: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho e tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados”. 22Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor havia dito pelo profeta: 23Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e o chamarão com o nome de Emanuel”, o que traduzido significa: “Deus está conosco”. 24José, ao despertar do sono, agiu conforme o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu em casa sua mulher. 25Mas não a conheceu até o dia em que ela deu à luz um filho. E ele o chamou com o nome de Jesus.

Esses versículos constituem a narração verdadeira e própria da concepção de Jesus[13]: eles descrevem a modalidade extraordinária de sua “origem”. Manifestam-se neles duas intenções; de um lado, a de sublinhar a ligação legal do menino com “José, filho de Davi” (v.20). Por causa disso José está no centro da narração. Por outro lado, a de afirmar que o que aconteceu em Maria é obra não de pai humano[14], mas do Espírito Santo: “Antes que coabitassem, achou-se grávida pelo Espírito Santo” (v.18). “O que nela foi gerado vem do Espírito Santo” (v.20). Essa gravidez – situada cronologicamente depois da troca formal do consentimento diante de testemunhas, mas antes da convivência na mesma casa, isto é, entre as duas etapas nas quais decorria o matrimônio judaico – é fruto da ação divina: assim como nas situações não regulares das mulheres da genealogia manifestaram-se a fidelidade e o poder de Deus, do mesmo modo agora, na situação de transição de sua humilde serva Maria, o Altíssimo faz grandes coisas. Assim, se, graças à descendência davídica de José, Jesus é legalmente filho de Davi, graças à inaudita concepção por obra do Espírito Santo, ele é Filho de Deus (cf. Mt 2,15). É por intermédio de José que Jesus é gerado como filho de Davi e por intermédio de Maria que ele é gerado como Filho de Deus[15]. Em Maria se cumpre a espera messiânica davídica por uma surpreendente, indeduzível e improgramável ação divina. A ausência da ação humana de paternidade é confirmada nos versículos 24-25: “José recebeu em casa sua mulher. Mas não a conheceu até o dia em que ela deu à luz um filho”. Outra confirmação vem do uso acurado da linguagem: é atribuído a Maria não o verbo gerar, referido ao ato paterno, mas o verbo mais feminino e materno, dar à luz (v.21.25). A maternidade de Maria é, pois, virginal[16]: essa é a idéia testemunhada com evidência pelo texto. Em apoio do paradoxal binômio da descendência davídica e da concepção virginal, Mt 1,22s cita o oráculo de Is 7,14: “Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta[17]: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e o chamarão com o nome de Emanuel […]”. Desse modo, enquanto sublinha o cumprimento da espera messiânica em Jesus, evidencia que nasceu prodigiosamente da virgem Maria aquele que é o Emanuel, o Deus conosco (v.23).

Assim Mateus conservou justamente o dado para ele mais difícil: o fato de Jesus não ter sido gerado por José, filho de Davi, como se esperaria, punha em questão a sua qualidade de Messias, além de propor uma ruptura desconcertante que para o seu meio era um escândalo[18]. Se o evangelista agiu assim, evidentemente é porque recolheu um testemunho da fé eclesial – o evangelista se sentiu mais ligado pelo acontecimento que pela letra das Escrituras –, quis testemunhar, por um lado, a concepção virginal de Jesus como uma obra inaudita e absolutamente única e, por outro, que a obra do Espírito Santo prefigurada nos profetas se cumpre em Jesus, que a leva à perfeição. Mateus quer resolver a dificuldade que nasce daí: como pode Jesus ser descendente de Davi se José, de estirpe davídica, não teve parte na sua geração? E o evangelista responde que o próprio Deus encarregou-se de inserir Jesus na descendência davídica, fazendo com que José acolhesse, na sua casa, Maria e lhe reconhecesse legalmente o filho, impondo-lhe o nome com autoridade paterna (“a quem deu o nome”). A única indicação no Novo Testamento acerca de Maria (cf. Lc 1,5.36) aponta para uma descendência levítica.

Concluindo: essa herança, ainda que seja legítima, vem por adoção de José. Indiretamente nos indica a enorme importância da adoção em Israel: Jesus é homem como filho da carne de Maria; mas é o Cristo (o Messias, o herdeiro de Davi) pela filiação adotiva de José. Jesus é filho do homem (no sentido de ser plenamente humano) por ser filho de Maria; é Cristo (Messias) por ser filho adotivo de José. Se a descendência davídica é herança que Jesus recebe por meio de José, a filiação divina lhe vem apenas do Espírito Santo.

Mateus 2,1-12

A terceira unidade do Evangelho da infância, (Mt 2,1-12), esclarece o “ubi” do advento divino na história, em sua forma visível, perceptível aos olhos dos homens: Belém da Judéia, a cidade davídica.

Seja-nos permitido, porém, aprofundar um pouco mais essa questão, antes de passarmos à perícope acima, dizendo que quanto ao local do nascimento de Jesus a problemática é maior. Assim tanto Mateus como Lucas afirmam que foi em Belém, porém Mt 2 e Lc 2 são os dois únicos capítulos do Novo Testamento onde a afirmação é feita de forma clara, não voltando a ser repetida em qualquer ponto das narrativas da infância ou no restante de Mateus e Lucas ou, na verdade, no resto do Novo Testamento. Em outras partes dos próprios Mateus e Lucas, Jesus é simplesmente Jesus de Nazaré, ou o Nazareno.

De fato, o único lugar em todo o Novo Testamento, além das narrativas da infância, onde aparece a palavra “Belém” é Jo 7,42, uma passagem, aliás, ambígua em seu propósito. A parte final de Jo 7 (Jo 7,40-52) trata das diversas reações de grupos e indivíduos judeus à auto-revelação de Jesus. Os versículos 40-44 focalizam a divisão das opiniões na “multidão” que ouviu sua doutrinação no Templo. Alguns pensam que ele é o profeta escatológico (v.40), enquanto outros dizem que ele é o Messias, o que é contestado por outro grupo nos vv. 41-42: “Porventura pode o Cristo (o Messias) vir da Galiléia? A Escritura não diz que o Cristo será da descendência de Davi e virá de Belém, a cidade de onde era Davi?”

Assim o autor do Quarto Evangelho insiste, desde o capítulo 1, que Jesus de fato vem de Nazaré (cf. Jo 1,45-46), com todo o espanto que isso causa até a futuros crentes (por exemplo, Natanael em Jo 1,46). A insistência de João em Nazaré como local das origens terrenas de Jesus retorna com força teológica na narrativa da Paixão (cf. Jo 18,5.7; 19,19). Além do mais, o evangelista nunca comunica a seus leitores qualquer outra tradição sobre a cidade natal de Jesus, a despeito da sua tendência em fornecer apartes informativos ao seu público, enquanto o drama prossegue.

Portanto, é provável que a ironia de Jo 7,42 deva ser entendida de forma diferente. Com freqüência, na ironia empregada por João, o que o contestador diz para excluir Jesus da consideração é perfeitamente correto no nível terreno e carnal, porém totalmente falho em captar a origem e realidade celestiais de Jesus, o Verbo feito carne. O que o contestador diz é perfeitamente correto e totalmente irrelevante. Assim, na mente de João em Jo 7,42, os contestadores estão certos quando dizem que Jesus vem de Nazaré e não de Belém, o que não é surpreendente, já que o Evangelho de João, em seu todo, não mostra grande interesse por uma cristologia calcada no Filho-de-Davi.

No entanto, o ponto central da ironia é que a origem terrena de Jesus, seja Nazaré ou Belém, não tem importância decisiva[19]. Em última análise, Jesus vem das alturas, do céu, do Pai, enquanto os contestadores cegos se fixam neste mundo “inferior, carnal”. Jesus volta depois a esse mesmo ponto, no mesmo discurso no Templo: “Vós sois daqui de baixo e eu sou do alto. Vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo” (Jo 8,23); portanto eles não podem compreendê-lo. Considerando-se a referência a Belém em Jo 7,42 como no mínimo ambígua, o versículo é de valor duvidoso como prova de uma tradição evangélica do nascimento de Jesus em Belém, fora das narrativas da infância. Mesmo que o nascimento de Jesus em Belém não possa ser totalmente excluído (raramente se consegue “provar uma negativa” em história antiga), temos que aceitar o fato de que, na opinião predominante nos Evangelhos e nos Atos, Jesus veio de Nazaré e – exceto pelos capítulos 1-2 de Mateus e Lucas – somente de Nazaré. Os caminhos um tanto sinuosos e suspeitos que Mateus e Lucas percorrem para conciliar a tradição dominante de Nazaré com a tradição especial de Belém das suas narrativas da infância talvez indiquem que o nascimento de Jesus em Belém deva ser entendido não como um fato histórico, mas como um theologoumenon, ou seja, um princípio teológico sob a forma de uma narrativa aparentemente histórica. É preciso admitir, no entanto, que não se pode ter certeza nesse ponto.

Leiamos agora o texto mateano.

1Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que vieram magos do Oriente a Jerusalém, 2perguntando: “Onde está o rei dos judeus recém-nascido? Com efeito, vimos a sua estrela no seu surgir e viemos homenageá-lo”. 3Ouvindo isso, o rei Herodes ficou alarmado e com ele toda  Jerusalém. 4E, convocando todos os chefes dos sacerdotes e os escribas do povo, procurou saber deles onde havia de nascer o Cristo. 5Eles responderam: “Em Belém da Judéia, pois é isto que foi escrito pelo profeta: 6E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és o menor entre os clãs de Judá, pois de ti sairá um chefe que apascentará Israel, o meu povo”. 7Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e procurou certificar-se com eles a respeito do tempo em que a estrela tinha aparecido. 8E, enviando-os a Belém, disse-lhes: “Ide e procurai obter informações exatas a respeito do menino e, ao encontrá-lo, avisai-me, para que também eu vá homenageá-lo”. 9A essas palavras do rei, eles partiram. E eis que a estrela que tinham visto no seu surgir ia à frente deles até que parou sobre o lugar onde se encontrava o menino. 10Eles, revendo a estrela, alegraram-se imensamente. 11Ao entrar na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o homenagearam. Em seguida, abriram seus cofres e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. 12Avisados em sonho que não voltassem a Herodes, regressaram por outro caminho para a sua região.

Do que acabamos de ouvir, depreende-se que a intenção apologética do evangelista é manifesta: ele quer responder às objeções dos judeus, referidas fielmente pelo Quarto Evangelho: “De Nazaré pode sair algo de bom?” (Jo 1,46). “Porventura pode o Cristo vir da Galiléia? A Escritura não diz que o Cristo será da descendência de Davi e virá de Belém[20], a cidade de onde era Davi?” (Jo 7,41-42). “És também galileu? Estuda e verás que da Galiléia não surge profeta” (Jo 7,52). Mateus quer propor, porém, muito mais do que isso, a saber, a idéia positiva da descendência davídico-régia do Messias e da salvação oferecida por meio dele a todos os povos, significados pelos magos: O seu escopo primeiro não é o de refutar os adversários de Jesus, e sim, o de explicar o mistério cristão a uma comunidade de crentes composta de judeus e gentios. Nesse quadro messiânico-régio, Maria é apresentada como Mãe do Messias-rei: os magos, que partiram à procura do “rei dos judeus, recém-nascido” (v.2), “ao entrar na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o homenagearam” (v.11; cf. também 11b sobre os presentes dos magos). Essa homenagem (adoração) tem caráter régio, e a mãe aparece aí no papel da rainha-mãe. O “ubi” de Mateus tem valor sobretudo teológico[21].

Mateus 2,13-23

Por fim, a última unidade – constituída pelos versículos 13-23 do capítulo 2 – apresenta o “de onde”, da missão de Jesus; também aqui o evangelista é guiado por intenção apologética. Eis a perícope:

13Após sua partida, eis que o Anjo do Senhor manifestou-se em sonho a José e lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito. Fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar”. 14Ele se levantou, tomou o menino e sua mãe, durante a noite, e partiu para o Egito. 15Ali ficou até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que dissera o Senhor por meio do profeta: Do Egito chamei o meu filho. 16Então Herodes, percebendo que fora enganado pelos magos, ficou irritado e mandou matar, em Belém e em todo seu território, todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo de que havia se certificado com os magos. 17Então cumpriu-se o que fora dito pelo profeta Jeremias: 18Ouviu-se uma voz em Ramá, choro e grande lamentação: Raquel chora seus filhos e não quer consolação, porque eles já não existem. 19Quando Herodes morreu, eis que o Anjo do Senhor manifestou-se em sonho a José, no Egito, 20e lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel, pois os que buscavam tirar a vida ao menino já morreram”. 21Ele se levantou, tomou o menino e sua mãe e entrou na terra de Israel. 22Mas, ouvindo que Arquelau era rei da Judéia em lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Tendo recebido um aviso em sonho, partiu para a região da Galiléia 23e foi morar numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareu.

Deslocando Jesus de Belém, o evangelista o faz ir para o Egito e voltar; ao mesmo tempo comenta a morte dos inocentes em Belém com as palavras usadas por Jeremias para descrever as tribos do Norte, condenadas ao exílio. Assim, de certo modo, o Jesus de Mateus revive o êxodo e o exílio, isto é, revive de maneira plena a história de Israel. O menino é, pois, a figura do novo Israel, e nele vem cumprir-se finalmente a espera messiânica do povo do êxodo e do exílio: ele é o “Nazareu” (v.23), designação que lembra seu estado de nazir, o santo de Deus (cf. Jz 13,5.7). Ao lado dele, sempre presente, como mostra a expressão recorrente “o menino e sua mãe” (vv. 13.14.20.21), está Maria, figura do Israel da espera.

Do conjunto das quatro unidades literárias de Mt 1-2 Maria emerge, pois, como o seio da nova criação, na qual a ação divina, pelo Espírito, opera as maravilhas da Encarnação do Filho e do novo início do mundo. O núcleo histórico que transparece em tudo isso é a transformação extraordinária de uma mulher pobre da Galiléia que vive a experiência totalmente inaudita da maternidade virginal por obra do Espírito Santo. Mateus não diz quais foram os caracteres que essa experiência teve para Maria, também porque no centro de seu interesse parece encontrar-se mais o aspecto davídico do nascimento de Jesus e, por isso, o vínculo legal com a figura de José, protagonista principal de suas narrativas. Será o testemunho de Lucas a lançar mais luz sobre o modo pelo qual a Mãe do Senhor viveu os acontecimentos únicos e extraordinários da concepção e do nascimento do filho de Deus entre nós.

Excurso

O próximo capítulo será dedicado a Lucas e, nesse sentido queremos aqui adiantar e ilustrar com mais alguns dados o nosso estudo, respondendo a uma questão: Até que ponto as narrativas de infância dos Evangelhos de Mateus e Lucas são históricas?[22]     Quem responde[23] é o doutor Joseph A. Fitzmyer, SJ, professor de Estudos Bíblicos no Catholic University of America, em Washington, membro da Pontifícia Comissão Bíblica.

É verdade que as narrativas da infância têm um núcleo histórico, mas, fora disso, é difícil dizer o que mais nelas deve ser considerado histórico.

As narrativas de infância não se originam da etapa mais primitiva da tradição evangélica. O Evangelho de Marcos não contém tal narrativa e o Evangelho de João, reconhecido como produto de uma tradição igualmente primitiva que se desenvolveu independentemente dos sinóticos, também não. Tem, em vez disso, o prólogo sobre o Verbo feito carne (Jo 1,1-18). As narrativas da infância surgiram num ponto da tradição em que o povo da Igreja primitiva começou a indagar sobre os antecedentes de Jesus e seus antepassados[24]. Assim, essas narrativas corresponderam a um interesse biográfico que posteriormente emergiram na tradição evangélica. Respondem a perguntas como Quis? et Unde?: “Quem é ele?” e “De onde ele veio?” As narrativas foram acrescentadas na tradição evangélica antes da parte que, de outro modo, se iniciava com o relato do aparecimento de João Batista como o pregador do batismo e do arrependimento, Mt 3,1-3 e Lc 3,2-4, o que corresponde ao início do Evangelho de Marcos (Mc 1,2-4). O aparecimento de João Batista é também o início da tradição conservada no Evangelho de João (nos trechos em prosa inseridos no prólogo [Jo 1,6-7.15] e na seqüência ao prólogo [Jo 1,19-27]).

A narrativa da infância realizada por Mateus difere consideravelmente da realizada por Lucas, o que basta para mostrar por que o historiador deve ser cauteloso com relação ao uso dessas narrativas como fontes de informação histórica sobre Jesus e sobre Maria. A narrativa de Mateus tem seis episódios: a genealogia de Jesus (1,1-17), em ordem descendente, de Abraão a José; e cinco episódios que alcançam o apogeu ou terminam com uma citação veterotestamentária: o relato da concepção virginal de Jesus (1,18-25); a visita dos magos (2,1-12); a fuga para o Egito (2,13-15); o massacre dos inocentes (2,16-18) e a volta do Egito para Nazaré (2,19-23). A narrativa da infância em Lucas, entretanto, não tem nada que corresponda a Mt 2,1-23, sua estrutura é bastante diferente, baseando-se principalmente em um paralelismo dos anúncios da concepção de João Batista (1,5-23) e de Jesus (1,26-38), dos nascimentos de João (1,57-58) e de Jesus (2,1-4), da circuncisão e manifestação de João (1,59-80) e de Jesus (2,21), com episódios intervenientes. Além disso, a narrativa da infância em Mateus não tem nada sobre João Batista ou o que corresponderia a Lc 2,8-52 (a vinda dos pastores a Belém, a apresentação de Jesus no Templo, a visita do Jesus de doze anos de idade ao Templo). Outrossim, na narrativa de Mateus, José recebe a comunicação celestial sobre a concepção virginal de Maria (1,20-21) do anjo do Senhor, sem nome em um sonho, enquanto na narrativa de Lucas, Maria a recebe (1,28-35) de Gabriel. Se só tivéssemos a narrativa de Lucas, concluiríamos que Jesus deve ter conhecido João, seu parente (nascido de Elisabete[25], parenta de Maria, 1,36). Contudo, no Evangelho de João, o Batista declara: “Eu mesmo não o conhecia” (Jo 1,31.33), um reconhecimento peculiar, se a narrativa da infância realizada por Lucas estiver correta a esse respeito. Tais diferenças tornam difícil harmonizar os detalhes das narrativas da infância em Mateus e em Lucas e harmonizar alguns dos detalhes com outras tradições evangélicas herdadas. Tudo isso tem relação com a questão sobre se todos os detalhes das narrativas da infância são relatados com fidelidade histórica.

Ao analisar a relação dos Evangelhos sinóticos, muitos intérpretes do Novo Testamento admitem que Mateus e Lucas usaram Marcos e “Q”, mas insistem que nem Mateus depende de Lucas, nem Lucas de Mateus. Considerando tal solução para o problema sinótico, é evidente que a narrativa da infância realizada por Lucas não depende da de Mateus, nem vice-versa. Isso, então, justifica a diversidade nas duas narrativas da infância e mostra que, ao elaborar sua narrativa da infância, cada evangelista fê-lo de maneira diferente e com propósitos literários diferentes (Mateus, para realçar a realização dos temas do Antigo Testamento; Lucas, para enfatizar o paralelismo da intervenção divina na concepção e no nascimento de João e de Jesus).

Apesar de tal independência e diferenças, há doze pontos nos quais Mateus e Lucas concordam em suas narrativas da infância:

  • O nascimento de Jesus relaciona-se com o reinado de Herodes Magno (Mt 2,1; Lc 1,5).
  • Maria, sua futura mãe, é uma virgem noiva de José, mas eles ainda não coabitaram (Mt 1,18; Lc 1,27.34; 2,5).
  • José é da casa de Davi (Mt 1,16.20; Lc 1,27; 2,4).
  • Um anjo do céu anuncia a concepção e o nascimento futuros de Jesus (Mt 1,20-21; Lc 1,28-30).
  • O próprio Jesus é reconhecido como filho de Davi (Mt 1,1; Lc 1,32).
  • Sua concepção acontecerá por intermédio do Espírito Santo (Mt 1,18.20; Lc 1,35).
  • José não se envolve na concepção (Mt 1,18-25; Lc 1,34).
  • O nome “Jesus” é imposto antes de seu nascimento (Mt 1,21; Lc 1,31).
  • O céu identifica Jesus como “Salvador” (Mt 1,21; Lc 2,11).
  • Jesus nasce depois que José e Maria vão viver juntos (Mt 1,24-25; Lc 2,4-7).
  • Jesus nasce em Belém (Mt 2,1; Lc 2,4-7).
  • Jesus se fixa, com Maria e José, em Nazaré, na Galiléia (Mt 2,22-23; Lc 2,39.51).

Nesses doze pontos, é possível usar Mateus como verificação ou controle histórico de Lucas e vice-versa, pois esse é um caso de atestação múltipla e independente[26]. Ambos, Mateus e Lucas, herdaram tradições mais primitivas comuns sobre a infância de Jesus, ou seja, essas concordâncias em duas narrativas independentes e profundamente coincidentes representariam, no mínimo, um recurso a uma tradição mais antiga, e não a criação dos evangelistas. Cada um deles adotou esses detalhes, que podem ser considerados como o núcleo histórico, e os incorporou a sua composição literária estruturada.

Quanto aos outros detalhes nas duas narrativas da infância, além desses doze que foram herdados em comum, eles podem ter se originado de fontes particulares que ambos, Mateus e Lucas, usaram, de “M” ou “L”. Mas ninguém tem certeza sobre o uso de “M” e “L” nessa parte da tradição evangélica; não podemos excluir a probabilidade de Mateus e Lucas terem composto livremente suas narrativas, embora usando esses doze pontos. Se for assim, teremos de levar em conta dúvidas e indecisões sobre o caráter histórico do resto (por exemplo, na narrativa de Mateus, sobre a visita dos magos, a fuga para o Egito, o massacre dos inocentes, a volta a Nazaré; de modo semelhante, na narrativa de Lucas, a visita dos pastores, a apresentação no Templo, o encontro de Jesus no Templo, aos doze anos). Esses detalhes não têm equivalente na outra narrativa da infância e para eles não há nada semelhante a um controle histórico. Contudo, o núcleo histórico (os doze pontos) impede-nos de considerar as narrativas da infância meras invencionices.

É preciso enfatizar que, embora não tenham elementos históricos comprobatórios, diversas cenas nas narrativas da infância de Lucas e Mateus não foram incorporadas aos Evangelhos apenas como relatos históricos. Cada episódio dessas narrativas transmite seu sentido teológico e cristológico e realça a mensagem evangélica sobre o Jesus recém-nascido, “um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11). Tal sentido e mensagem têm êxito, mesmo se não é possível mostrar a base histórica de todos os detalhes nessas narrativas da infância.

Leituras de aprofundamento

Gn 38,6-30 (Tamar seduziu a seu sogro); Js 2,1-21; 6,22-25 (Raab, prostituta pagã); 2Sm 11; 1Rs 1,11-31; 2,13-25 (Betsabéia, mulher de Urias); Rt 1-4 (Rute, estrangeira desprezada pelos hebreus).

Prof. Diác. Everaldo Ribeiro Franco

 

[1] Certamente a datação desse Evangelho é depois de 70, dado que o judaísmo rabínico com o qual Mateus se confronta é um fenômeno posterior à queda de Jerusalém. A análise interna do escrito parece excluir a origem apostólica, pois não se pode imaginar que uma testemunha ocular use o Evangelho de Marcos como fonte para ocorrências em que ele mesmo (Mateus) esteve presente. Na realidade estamos diante de um anônimo da segunda geração cristã.

[2] Lembremos que de acordo com a Teoria Modificada das Duas Fontes, Marcos foi escrito primeiro e tanto Mateus quanto Lucas se utilizaram dele e escreveram independentemente um do outro. O que Mateus e Lucas têm em comum e não proveio de Marcos é explicado com base na hipótese da fonte Q (do alemão Quelle, “fonte”). O restante do material é de fonte própria.

[3] Em 1966-1967, o “problema singularmente difícil” da historicidade das narrativas da infância de Jesus (Mt 1-2; Lc 1-2) foi submetido por escrito aos consultores especialistas da Pontifícia Comissão Bíblica. Não se chegou a nenhuma decisão nem se produziu nenhum documento. Hoje os especialistas afirmam que as narrativas evangélicas da infância refletem fortemente a teologia posterior.

[4] É interessante observar que o Novo Testamento não atribui a José palavra alguma. E dois dos quatro Evangelhos nem mesmo falam a seu respeito. Apenas os apócrifos tentarão remediar esse silêncio e vazio sobre o “Justo” de Nazaré.

[5] Pelo fato de José aparecer com destaque no relato da infância segundo Mateus, e Maria no de Lucas, surgiu a hipótese (aceita pelo menos na época pré-crítica dos estudos bíblicos) de que José e Maria garantem a verificação de testemunhas oculares no que tange ao material sobre a infância. Devemos sublinhar que se trata de mera suposição, sem apoio algum na informação subseqüente do Novo Testamento sobre Maria ou, com mais razão ainda, sobre José, o pai legal de Jesus (que nunca aparece no ministério público de Jesus e que provavelmente já tinha morrido naquele tempo).

[6] Sem dúvida, o desejo de evitar o juízo de Maria que poderia evidenciar seu desconhecimento da origem divina de seu Filho – afinal, Mateus descreve o episódio da Anunciação – fez com que o autor do Evangelho de Mateus, usando o critério do constrangimento, eliminasse os fatos que mais obstaculizavam do que ajudavam a fé da comunidade primitiva. Temos aí um bom exemplo de como funciona o critério do constrangimento.

Mas o que é tal critério? O critério do constrangimento (segundo Schillebeeckx) ou da contradição (segundo Meyer) enfoca os fatos que poderiam ter constrangido ou criado dificuldades para a Igreja primitiva. O ponto essencial desse critério é que a Igreja em seus primórdios dificilmente teria inventado esses fatos criando assim material que pudesse constranger ou enfraquecer sua posição teológica nas discussões com seus adversários. O redator do Evangelho de Mateus, ao que parece, teve uma vantagem que faltou ao evangelista Marcos (o primeiro Evangelho escrito), ou seja, a disponibilidade de tempo para ler e reler, diversas vezes, todo o Evangelho durante um certo período e, assim, eliminar tudo aquilo que criava dificuldades em sua comunidade.

[7] O Quis (quem) trata da identidade de Jesus como filho de Davi, filho de Abraão, ilustrado por meio de seus antepassados. O Quomodo (como) da identidade de Jesus retrata que ele é filho de Davi não por geração humana, mas por meio da aceitação de José, descendente de Davi. Esse menino concebido pelo poder do Espírito Santo esclarece mais o Quis da identidade de Jesus: ele é o Filho de Deus, Emanuel. O Ubi (onde) do nascimento de Jesus em Belém realça sua identidade como filho de Davi. Finalmente o Unde (de onde) do destino de Jesus é posto pela reação hostil de Herodes e das autoridades judaicas. Providencialmente, Jesus revive a experiência de Moisés no Egito e de Israel no êxodo. É levado de Belém, a cidade do rei dos judeus, para a Galiléia dos gentios; o fato de ir residir em Nazaré dá o toque final a sua identidade e a seu destino, pois é como Jesus, o nazareu, que ele inicia seu ministério.

[8] O objetivo teológico da genealogia permite que Mateus jogue com alguns dos nomes. Assim ao mencionar o rei Asa, Mateus escreve Asaf (Var.) que, segundo o Saltério, compôs vários Salmos e, em vez de Amon, outro rei de Israel, o evangelista escreve Amós (Var.), que foi um dos célebres profetas do povo de Israel. Não quererá dizer-nos Mateus, com esse pequeno jogo, que também os Salmos e os profetas atingem em Cristo a sua plenitude? Lembremos que Cristo é a plenitude da Revelação.

[9] Antigamente se pensava que o homem era quem gerava, sendo a mulher simples incubadora. Mateus quebra a seqüência para mostrar que aquele que foi gerado em Maria não vem do homem mas de Deus mesmo. Assim a salvação não vem do esforço do homem, mas é dom de Deus.

[10] S. Irineu comentando a genealogia de Jesus em Lc 3,23-38 diz que, ao contrário de Mateus que faz descer de Abraão a Jesus, o evangelista começa com Jesus e vai até Adão para mostrar que a fonte da vida não é Abraão, mas Jesus. É interessante observar ainda, que Lucas inclui Davi mas salta a linha real vinda de Davi, como se dissesse implicitamente aos seus leitores que temos em Jesus um tipo de rei muito diferente daquele que alguns esperavam.

[11] “Este é o fato mais importante: nenhuma das quatro mulheres é judia; assim, por intermédio delas, entra na genealogia de Jesus o mundo dos gentios: torna-se visível que a sua missão se destina a judeus e pagãos” (Joseph Ratzinger, in A infância de Jesus). Por outro lado, a história na qual Jesus entra é uma história humana bem comum com todos os escândalos e baixezas que há entre os homens, com toda a culpa e torpezas – uma história sumamente humana. As únicas quatro mulheres que são mencionadas na árvore genealógica são quatro testemunhas da culpa humana. Isto mostra que a encarnação de Deus não é o resultado da ascensão do homem, mas da descida de Deus.

[12] Assim também com Jesus, na escolha dos apóstolos: “Escolheu aqueles que ele quis” (Mc 3,13).

[13] Na encarnação se realizou a promessa do sinal veterotestamentário do nascimento do Emanuel.

[14]  “Só procurou Mãe na terra quem já tinha Pai nos céus” (S. Agostinho).

[15] A única indicação no Novo Testamento acerca de Maria (Lc 1,5.36) aponta para uma descendência levítica (p. 1454, in NCBSJ, Novo Testamento).

[16] A tradição da concepção virginal presente na Igreja de Mateus deve ser cuidadosamente pesada contra a preocupação teológica maior do evangelista, ou seja, a filiação de Jesus à casa de Davi através de José, seu pai legal.

[17] Estamos diante de uma realidade que as palavras aguardavam. Essa realidade, nas palavras em si mesmas, não era reconhecível, mas as palavras alcançam o seu significado pleno através do evento em que elas se tornam realidades. O versículo 14 de Isaías 7, faz parte daquelas palavras que, de momento, ainda estão à espera da realidade a que se referem. Foi a partir dessa correlação entre a palavra “à espera” e o reconhecimento do seu protagonista finalmente aparecido que se desenvolveu a exegese tipicamente cristã, que é nova, permanecendo, ao mesmo tempo, totalmente fiel à palavra originária da Escritura.

Lindars (Apologetic, p. 215) apresenta a interessante hipótese de que os cristãos usaram primeiro Is 7,14 na forma hebraica, para apoiar as origens davídicas de Jesus, e só mais tarde na forma grega, para apoiar a concepção virginal de Jesus.

[18] Essa mudança considerada como uma ruptura desconcertante ocorre depois de Mateus haver dito 39 vezes a fórmula “fulano gerou sicrano”.

[19] É essa conhecida procedência terrena de Jesus que encobre sua verdadeira origem.

[20] A TEB traz a seguinte nota: “Cf. 2Sm 7,12-17; Sl 89,4-5; Jr 23,5; quanto a Belém, Mq 5,1. Tudo parece suceder como se o nascimento em Belém fosse ignorado pelos adversários (a Bíblia de Jerusalém traz as mesmas palavras). Será que é preciso ver nisso uma ironia (ironia: do grego eirôneia, interrogação/realce de um fato para exprimir o contrário) joanina? Observemos também que João mesmo nunca fala do nascimento de Jesus em Belém”.

[21] Rudolf Pesch afirma que Nazaré é o lugar histórico do nascimento de Jesus, enquanto Belém é o lugar teológico (cf. p. 75 in Os Evangelhos I, Giuseppe Barbaglio et alii, Loyola). É interessante observar que dois dos quatro evangelistas (Mc e Jo) não mencionam o nascimento de Jesus, e que também nossa fonte mais antiga, Paulo, nada diz a respeito.

Se o silêncio de Mc e Jo e também de Paulo pode induzir a pensar num “theologoumenon” (uma visão teológica narrada como acontecimento histórico) dos evangelistas Mt e Lc, a ausência de contestações antigas do dado dos Evangelhos da infância faz propender para o conteúdo histórico da indicação: cf. R. Brown, O nascimento do Messias, Paulinas.

A afirmação acima do respeitado teólogo Rudolf Pesch, não deve causar estranheza nos leitores católicos, pois ela não afeta a inerrância bíblica. De fato, não nos esqueçamos de que o Vaticano II esclareceu a extensão da inerrância bíblica: “Devemos professar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus em vista da nossa salvação quis consignada nas Sagradas Escrituras” (DV 11). No caso da afirmação, o católico leal ao Vaticano II pode tolerar tal hipótese, embora contrária ao dado bíblico tradicional, já que tal fato geográfico dificilmente constitui uma verdade manifestada por Deus “para nossa salvação”.

[22] Embora coincidentemente as narrativas de infância dos Evangelhos de Mateus e Lucas consistam em dois capítulos, a lucana tem duas vezes a extensão da mateana. Mas o que queremos aqui destacar é que a tese de inspiração não pode ser invocada como garantia de historicidade, pois uma narrativa divinamente inspirada não é necessariamente histórica. Assim devemos ser levados ao reconhecimento de que na Bíblia há ficção, parábola e folclore, além de história.

Veja nota 3 acima.

[23] Cf. Catecismo cristológico, Loyola. Raymond E. Brown escreveu um estudo magistral das duas narrativas da infância no seu livro The Birth of the Messiah. Aí ela mostra como cada qual reflete o ponto de vista teológico do seu redator.

[24] A curiosidade com certeza desempenhou um papel importante nas narrativas da infância canônicas e apócrifas (os evangelhos apócrifos mais importantes neste caso são o Proto-evangelho de Tiago [c. 150 d.C.] e o Evangelho da Infância de Tomé [fim do século II]). Os cristãos queriam saber mais a respeito do Senhor: conhecer sua família, seus antepassados, o lugar de seu nascimento. Lembremos que o nascimento de Jesus não é o tema da pregação apostólica primitiva. Assim Marcos, o primeiro Evangelho a ser escrito, não faz nenhuma menção ao nascimento de Jesus, mas uma seqüência que começa com o batismo e termina com a ressurreição (um esboço semelhante se encontra em At 10,37-41).

[25] Isabel é a forma grega do hebraico Elisabete (cf. p.449, in Dicionário Bíblico, por John L. Mackenzie).

[26] Cf. “O critério de testemunho múltiplo” (ou da “múltipla confirmação”) in Autenticidade Histórica dos Evangelhos – Estudo de Criteriologia, por F. Lambiasi, Paulinas, 1978. Em síntese o critério de testemunho múltiplo afirma que uma tradição testemunhada por dois ou mais testemunhos independentes entre si tem mais probabilidade de ser autêntica.

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