Mariologia

6. Maria no Novo Testamento: Maria no Evangelho de Lucas

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Resumo

O capítulo apresenta Maria em Lucas, evangelho dirigido a um ambiente gentílico. Nos “relatos da infância” (Lc 1–2), sobressai a Anunciação (cheia de graça, concepção virginal, fiat e estrutura trinitária), a Visitação (Maria como arca da nova aliança), o Natal (Messias davídico; Maria guarda e medita), a Apresentação e o Menino no Templo (identidade filial de Jesus). Em At 1,14, Maria está com a Igreja nascente. Modelo do discípulo, ela “avança na peregrinação da fé”.

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Introdução

O terceiro Evangelho foi escrito para uma Igreja de ambiente gentílico, no curso dos anos 85, adicionando-se ou subtraindo-se entre cinco e dez anos. A obra de Lucas pertence, portanto, ao mundo helenístico e localiza-se no terceiro elo da cadeia de transmissão, após as testemunhas diretas e após os primeiros que recolheram recordações ou as ampliaram em forma de uma história contínua (cf. Lc 1,1-4). Assim ela é, como a obra de Paulo, um testemunho sobre a passagem do Evangelho do mundo palestino para o mundo helenístico (a primeira sucessão cultural da história da Igreja). É o único dos Evangelhos que tem continuação em um segundo livro, os Atos dos Apóstolos (cf. At 1,1-2). Com isso ele mostra como a ação e a palavra de Jesus foram compreendidas e continuadas pelos seus discípulos. Portanto, o livro dos Atos, posterior à redação do Evangelho, ofereceria em sua referência a Maria (At 1,14) um dos testemunhos mais tardios a esse respeito.

Como em Mateus, também em Lucas a contribuição mais original em relação à Mãe do Senhor encontra-se nas “narrações da infância” de Jesus[1] (Lc 1-2): no restante de seu Evangelho, Maria não é mais mencionada, e as escassas referências a ela tendem a apresentá-la sobretudo à luz do discipulado – o que poderia explicar por que, enquanto nas narrações da infância lhe é dado tanto espaço, depois, quando há outras figuras de discípulo a evidenciar, como os Doze, ela é deixada mais na sombra.

Mas é sobretudo em São Lucas, que apresenta o material mariano mais abundante que o de qualquer outro autor neotestamentário, que Maria nos mostra sua face e sua voz, nos relatos da Anunciação, Visitação, Natal, Apresentação do Menino ao Templo e seu Encontro após a perda de três dias. São os “mistérios gozosos” do Rosário, que tanto alimentam a piedade cristã e se fixaram nas mais belas obras das artes e da poesia. Por fim, é interessante observar que os episódios de Lc 1-2[2] fazem eco permanente a textos do Antigo Testamento, sendo a narração lucana não um relatório protocolar ou crônica do nascimento e dos primeiros acontecimentos de Jesus, mas uma narração que pode definir-se como narração sacra.

Analisemos cada um dos relatos lucanos.

A Anunciação

Os dois primeiros capítulos de São Lucas são artificialmente compostos, em dois dípticos ou dois quadros simétricos compostos de duas cenas: o díptico das anunciações ((Lc 1,5-56) e dos nascimentos (Lc 1,57-2,52), respectivamente de João Batista, o precursor, e de Jesus, o Salvador. O paralelismo, assim como a contraposição das duas histórias, tendem a ilustrar a correspondência, mas também a diferença entre os dois tempos da salvação: “A Lei e os Profetas vão até João; daí em diante, é anunciado o Reino de Deus, e cada um se esforça para entrar nele” (Lc 16,16).

Vejamos a perícope Lc 1,26-38:

26No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, 27a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria. 28Entrando onde ela estava, disse-lhe: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” 29Ela ficou intrigada com essa palavra e pôs-se a pensar qual seria o significado da saudação. 30O Anjo, porém, acrescentou: “Não temas, Maria! Encontraste graça junto de Deus. 31Eis que conceberás no teu seio e darás à luz um filho, e tu o chamarás com o nome de Jesus. 32Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; 33ele reinará na casa de Jacó para sempre, e o seu reinado não terá fim”. 34Maria, porém, disse ao Anjo: “Como é que vai ser isso, se eu não conheço homem algum?” 35O anjo lhe respondeu: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra; por isso o Santo que nascer será chamado Filho de Deus. 36Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice, e este é o sexto mês para aquela que chamavam de estéril. 37Para Deus, com efeito, nada é impossível.” 38Disse, então, Maria: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” E o Anjo a deixou.

Na Anunciação a Maria[3] é lícito distinguir a revelação que lhe é transmitida e a maneira como é descrita, e que lembra outras anunciações bíblicas (principalmente a feita a Gedeão: cf. Jz 6,11-24). O texto indica uma aparição do anjo Gabriel, que também se manifestara a Zacarias, notificando o nascimento de João Batista (Lc 1,11-20).

A riqueza doutrinal da Anunciação é imensa. Estão aí afirmadas a plenitude de graça em Maria, sua maternidade virginal, a dignidade de seu Filho, e mostra-se a resposta ativa e responsável que ela deu ao convite de Deus. Na Anunciação, Maria escuta com fé a Palavra de Deus e entrega-se como instrumento dócil em suas mãos; acolhe o Messias e põe-se à disposição da sua obra. O seu consentimento abre ao Senhor o caminho para a sua vinda pessoal ao mundo e inaugura a plenitude dos tempos (cf. Gl 4,4).

Algumas semelhanças entre as anunciações de João e de Jesus merecem ser assinaladas: à aparição de um anjo segue uma reação de temor, o anúncio, uma objeção do destinatário e o oferecimento de um sinal. Todos esses elementos se encontram no caso de Zacarias (Lc 1,11.12-13; Lc 1,15-17.18; Lc 1,20) e no de Maria (Lc 1,26-27.29-31; Lc 1,32-34.36-37), onde as diferenças iluminam o que houve de específico relativamente à Mãe do Senhor.

A aparição ao pai do Batista se deu no Templo de Jerusalém (Lc 1,11); o aparecimento a Maria se deu “numa cidade da Galiléia, chamada Nazaré” (Lc 1,26). Cessa a economia do templo de pedra (Deus quer habitar no coração do homem); a presença divina se oferece num lugar pobre, ordinário, até desprezado (cf. Jo 1,46). A pessoa da Virgem parece apresentar-se como o novo templo: “Entrando onde ela estava, o Anjo disse: […] o Senhor está contigo!” (v,28).

Zacarias e Isabel “eram justos diante do Senhor e, de modo irrepreensível, seguiam todos os mandamentos e estatutos do Senhor” (Lc 1,6); Maria é a kecharitoméne (cheia de graça[4], v.28). Enquanto nos pais de João emerge a ação humana, o cumprimento da Lei do Antigo Testamento, em Maria, brilha a iniciativa livre, gratuita e poderosa de Deus, a sua eleição, que precede todo mérito. Maria é aquela que “encontrou graça junto de Deus” (v.30), que foi “transformada” pela sua graça (v.28).

Nas duas anunciações o Anjo diz: “Não temas” (Lc 1,13.30). A Zacarias é assegurado o atendimento de sua prece (v.13) e a fecundidade de sua mulher, anciã e estéril[5]; a Maria são revelados um dado e um projeto inauditos, sem precedentes na história do povo santo: “Encontraste graça junto de Deus. Eis que conceberás um filho […] será grande e será chamado Filho do Altíssimo” (vv.30-32). Não é o cumprimento de uma espera de baixo, mas a surpreendente, indeduzível e improgramável iniciativa do alto. Não vem do desejo humano; é iniciativa divina.

A objeção de Zacarias (v.18) revela falta de fé (cf. v.20); a de Maria se refere não ao objeto da promessa, mas à modalidade extraordinária dela (v.34). Maria não duvida do poder divino, apenas indica um dado de fato a respeito do qual a ação do Onipotente deverá mostra-lhe a via a seguir. A pergunta de Maria revela sobretudo o seu desejo de discernir as vias que o Senhor lhe pede que percorra, e sua disponibilidade radical para segui-las, sejam quais forem. Sua atitude de fé transparece nas palavras da Virgem: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Maria é assim a primeira a acreditar na boa nova, a figura do discípulo ideal (modelo da Igreja).

Por fim, devemos ressaltar que na Anunciação está presente a estrutura “trinitária”: a iniciativa de Deus, mediante o Espírito, realiza a presença do Filho entre nós.

A Visitação

O episódio da visita de Maria a Isabel[6], narrado em Lc 1,39-56, confirma os elementos centrais presentes na narração da anunciação relativamente à Virgem Mãe. O “sinal” prometido pelo anjo acha aqui a confirmação. Além disso, esta cena – na qual se encontram as duas mães – estabelece a ligação entre as duas anunciações e os respectivos filhos: João e Jesus. Através de sua mãe, o profeta precursor saúda e dá testemunho do Senhor Messias presente em Maria de Nazaré.

A narração está impregnada de episódios do Antigo Testamento. Assim, só para citar dois, Isabel acolhe Maria “em alta voz”, como o povo de Deus acolheu a arca da presença de Deus com fortes aclamações (cf. 1Cr 15,28; 2Cr 5,13). Davi exclama: “Como poderá vir a mim a arca do Senhor?” (2Sm 6,9). A idéia teológica que emerge desse paralelismo é que Maria é a arca da nova aliança[7], que traz no seu seio a presença do Deus conosco.

O nascimento de Jesus

Depois da narração do nascimento de João (Lc 1,57-80), do qual Maria está ausente, Lucas apresenta a do nascimento de Jesus (Lc 2,1-20).

Eis o texto:

1Naqueles dias, apareceu um edito de César Augusto, ordenando o recenseamento de todo o mundo habitado. 2Esse recenseamento foi o primeiro enquanto Quirino era governador da Síria. 3E todos iam se alistar, cada um na própria cidade. 4Também José subiu da cidade de Nazaré, na Galiléia, para a Judéia, na cidade de Davi, chamada Belém, por ser da casa e da família de Davi, 5para se inscrever com Maria, sua mulher, que estava grávida. 6Enquanto lá estavam, completaram-se os dias para o parto, 7e ela deu à luz o seu filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia um lugar para eles na sala. 8Na mesma região havia uns pastores que estavam nos campos e que durante as vigílias da noite montavam guarda a seu rebanho. 9O Anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor envolveu-os de luz; e ficaram tomados de grande temor. 10O anjo, porém disse-lhes: “Não temais! Eis que eu vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: 11Nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo-Senhor, na cidade de Davi. 12Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido envolto em faixas deitado numa manjedoura”. 13E de repente juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste a louvar a Deus dizendo: 14“Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens que ele ama!” 15Quando os anjos os deixaram, em direção ao céu, os pastores disseram entre si: “Vamos já a Belém e vejamos o que aconteceu, o que o Senhor nos deu a conhecer”. 16Foram então às pressas, e encontraram Maria, José e o recém-nascido deitado na manjedoura. 17Vendo-o, contaram o que lhes fora dito a respeito do menino; 18e todos os que os ouviam ficavam maravilhados com as palavras dos pastores. 19Maria, contudo, conservava cuidadosamente todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração. 20E os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora dito.

O texto parece aludir a Mq 5,1-4, onde os pontos de contato são: a indicação geográfica de Belém da Judéia em Mq 5,1 e Lc 2,4; a referência ao tempo em Mq 5,2 e Lc 2,6-7; a menção da glória do Senhor e da paz messiânica em Mq 5,3-4 e Lc 2,8-9.14. A idéia que se projeta é a de que Jesus é o Messias davídico, e Maria, a mãe do Messias-rei. As referências a Maria são cinco. Os vv.4-5 falam de José, que subiu para a Judéia, “para a cidade de Davi, chamada Belém, para se inscrever com Maria, sua mulher, que estava grávida”. O v.6 afirma que se completaram para ela “os dias para o parto”; o v.7 diz que ela deu à luz “o seu filho primogênito”. No v.16 Maria é apresentada com “José e o recém-nascido deitado na manjedoura”. Enfim, o v.19 diz “Maria, contudo, conservava cuidadosamente todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração”, uma expressão que parece indicar o trabalho de sua fé (cf. LG 58). A idéia volta em Lc 2,51. Essa repetição como conclusão das narrações da infância quer mostrar a continuidade dessa atitude de Maria: também nesse perseverar no trabalho da fé ela é modelo do discípulo cristão, uma fé reflexiva e atenta, uma fé progressiva que amadurece e se aprofunda até a experiência pascal.

A apresentação de Jesus no Templo

Podem ser considerados como parte do nascimento os episódios da circuncisão e da apresentação de Jesus no Templo (Lc 2,21-40). Conforme estava prescrito na Lei, a mulher que dava à luz um filho devia comparecer ao Templo quarenta dias após, para uma oferenda. Assim o evangelista quer mostrar o pleno cumprimento da lei mosaica (mencionada quatro vezes: vv.22.23.24.39) no desenrolar desses acontecimentos. A circuncisão foi feita em obediência a Lv 12,3; o resgate do primogênito do sexo masculino, segundo as prescrições de Ex 13,1-2.11-12.14-16 e Nm 8,16-17; a purificação da mulher, mediante a oferta de um cordeiro ou um par de rolas ou dois pombinhos, segundo Lv 12,2-4.6-8; Lv 5,7.

O modelo que se entrevê nessa narração é o da história de Samuel, filho de Elcana e Ana (cf. 1Sm 1,19-28; 1Sm 2,20; 1Sm 2,22.26), onde a diferença notável está no fato de que Jesus, ao contrário de Samuel, não ficou servindo no Templo (cf. 1Sm 2,11 e Lc 2,39-40).

Por fim o Evangelho lucano da infância se encerra com o episódio do menino no Templo (Lc 2,41-52), que rompe o silêncio dos anos de Nazaré. Aos doze anos, Jesus participa na peregrinação a Jerusalém para a festa de Páscoa e realiza um misterioso gesto profético. Quando devia regressar, fica no Templo, sem ninguém ter dado conta. Reencontram-no depois de três dias de busca angustiante. Maria recorda-lhe, de maneira discreta, o direito dos pais (Lc 2,48). A resposta de Jesus é enigmática (a primeira vez que sua fala é registrada): ele pertence a outro Pai e tem uma tarefa especial. Mas volta para Nazaré, obediente e submisso. Quando se completarem os seus dias terrenos, numa outra Páscoa, desvendará o sentido deste morar com o Pai. Temos aí indicada a verdadeira identidade de Jesus e a sua missão (v.49). Maria e José não compreenderam a resposta de Jesus[8] (v.50) e, desse modo, supostamente não proclamaram sua identidade de uma maneira aberta enquanto ele crescia. A Mãe, porém, conservava em seu coração todos esses acontecimentos, olhando para o futuro, que revelará seu verdadeiro sentido. Por tudo isso, diz o Concílio Vaticano II que, Maria “avançou na peregrinação da fé” (LG 58), sendo figura e modelo exemplar do verdadeiro discípulo.

Leitura espiritual

Liturgia das Horas, vol.II: São Beda, “Maria engrandece o Senhor que age nela”, do dia 31 de maio.

Liturgia das Horas, vol.III: Dos Sermões de São Leão Magno, Papa, “Maria Concebeu primeiro em seu espírito, e depois em seu corpo”, do Ofício das Leituras, do dia 16 de julho.

Liturgia das Horas, vol.I: Das Homilias em louvor da Virgem Mãe, de São Bernardo, abade, “O mundo inteiro esperava a resposta de Maria”, Ofício das Leituras, do dia 20 de dezembro.

Liturgia das Horas, vol.I: Das Homilias em louvor da Virgem Mãe, de São Bernardo, abade, “O mundo inteiro esperava a resposta de Maria”, Ofício das Leituras, do dia 20 de dezembro.

Liturgia das Horas, vol.II: Dos Sermões de São Bernardino de Sena, presbítero, “Guarda fiel e providente”, Ofício das Leituras, do dia 19 de março.

Liturgia das Horas, vol.I: Da Exposição sobre o Evangelho de São Lucas, de Santo Ambrósio, bispo, “A visitação da Virgem Maria”, Ofício das Leituras, do dia 21 de dezembro.

Liturgia das Horas, vol.I: Da Exposição sobre o Evangelho de São Lucas, de São Beda, o Venerável, presbítero, “Magnificat”, Ofício das Leituras, do dia 22 de dezembro.

Liturgia das Horas, vol.III: Das Homilias de São Beda, o Venerável, presbítero, “Maria engrandece o Senhor que age nela”, Ofício das Leituras, do dia 31 de maio.

Prof. Diác. Everaldo Ribeiro Franco

 

[1] No novo Testamento herdamos quatro histórias diferentes que se propõe nos relatar o que Jesus disse e fez. Embora contenham muitos detalhes que concordam entre si, há também um número considerável de desacordos. No tocante ao nosso tema, as diferentes narrativas da infância de Mateus e Lucas desafiam a coerência. No primeiro, a comunicação celestial sobre a criança que nasceria é feita a José, mas no segundo, é feita a Maria. Não podemos alegar sem mais cerimônias que, na verdade, foi feita a ambos. Além disso, as histórias em Mt 2 são muito diferentes das de Lc 2. É claro que as narrativas da infância têm um núcleo histórico, mas, fora disso, é difícil dizer o que mais nelas deve ser considerado histórico. Tais narrativas da infância não se originaram da etapa mais primitiva da tradição evangélica. O Evangelho de Marcos não contém tal narrativa. As narrativas da infância surgiram num ponto da tradição em que o povo da Igreja primitiva começou a indagar sobre os antecedentes de Jesus e seus antepassados. Assim, essas narrativas corresponderam a um interesse biográfico que posteriormente emergiram na tradição evangélica. Respondem a perguntas como Quis? Et Unde?: “Quem é ele?” e “De onde ele veio?” Assim parece digna de menção a definição de Martin Kähler (1835-1912) do Evangelho como “relato da paixão com uma longa introdução”. De fato, o ponto central da vida de Jesus é sua morte na cruz; esse é o acontecimento que nos possibilita a compreensão de tudo o que antecede (pré-pascal) e de tudo o que segue essa morte (pós-pascal). Nos Evangelhos, o fato da morte e ressurreição de Jesus não representa simplesmente o relato final que encerra a narração da vida pública de Jesus, mas o acontecimento básico à luz do qual foram escritos os Evangelhos. Sua redação foi fruto do evento pascal, que proporcionou aos autores sagrados a clareza necessária para entenderem a identidade de Jesus e o sentido de sua atuação. Tomar a morte na cruz como ponto de partida não significa querer partir de um ponto arbitrário, mas sim daquele que a própria pregação primitiva fixou (cf. At 2,23; 1Cor 2,2) e que constituiu o núcleo germinal para a formação dos próprios Evangelhos (“histórias da paixão com introduções amplas”, definiu o teólogo alemão Martin Kähler: 1835-1912).

[2] Devo dizer que os dois primeiros capítulos do Evangelho de São Lucas, como os do primeiro Evangelho não pertencem ao querigma apostólico fundamental, como ou outros capítulos que vão do Batismo no Jordão à ressurreição. Seria dizer que eles interpelam a fé do cristão de um modo diverso do resto do Evangelho.

[3] Segundo Raymond Brown (in Maria no Novo Testamento), “a mensagem da anunciação lucana é um reflexo da linguagem cristológica e das fórmulas da Igreja pós-pascal. Em outras palavras, a mensagem do Anjo a Maria dramatiza vivamente o que a Igreja disse sobre Jesus após sua ressurreição e durante seu ministério posterior ao batismo. Pois bem, essa cristologia foi retrotraida e se aplica a Jesus já desde sua concepção no seio materno. Tudo isso significa que Lc 1,32-33.35 dificilmente se pode considerar como palavras explícitas divinamente reveladas a Maria antes de nascer Jesus; e por isso não se deve presumir que Maria tivesse conhecimento explícito de Jesus como Filho de Deus durante a vida dele”. Em nota correspondente acrescenta: “A obra de R. Laurentin, Jésus au Temple, supõe a tese de que Maria soubesse desde o momento da anunciação que Jesus era de natureza divina. Se não se supõe que Maria ocultasse essa notícia aos seguidores de Jesus, semelhante conhecimento antecipado da sua divindade torna ininteligível a longa luta pós-pascal pela conquista dessa verdade. A representação marcana do segredo messiânico e o retrato que Marcos traça de Maria, que nada compreende, se converteriam em graves distorções”. O que se percebe dos relatos evangélicos é que a vida inteira de Maria está marcada pelas duras exigências de uma fé que não compreende, mas confia. São Lucas é muito claro a esse respeito. Quando, aos doze anos, Jesus se perde por ocasião de uma peregrinação, José e Maria conhecem três angustiantes e terríveis dias. À suave reprimenda da Mãe: “Por que nos fizeste isso?”, o Menino-Deus, responde: “Não devo tomar conta das coisas que são de meu Pai?” E São Lucas acrescenta: José e Maria “não compreenderam o que lhes dissera” (Lc 2,50). É verdade que a piedade medieval atribuía à Virgem, no momento da Anunciação, um conhecimento antecipado de todas as fases da vida do seu Filho. Mas esse ponto de vista pertence ao período pré-crítico de interpretação da Bíblia. Devemos acrescentar que o Vaticano II afirma que “a Bem-aventurada Virgem avançou em peregrinação de fé” (LG 58). Insistindo: o relato lucano parece ser, em grande parte, produto da reflexão cristã primitiva quanto ao significado salvífico de Jesus Cristo, à luz das profecias do Antigo Testamento. De forma significativa, os grandes temas cristãos das tradições da morte-ressurreição, nos Evangelhos e nas primeiras fórmulas do credo, foram transferidos para as histórias da concepção e do nascimento (por exemplo, cf. Rm 1,3-4 com Lc 1,31-35). Assim, torna-se claro um importante ponto teológico: o que Jesus acabou por revelar-se na ressurreição (Filho [da casa] de Davi, Filho de Deus pela força do Espírito Santo), ele na realidade já era desde o momento de sua concepção, conforme se lê na narrativa da infância.

[4] Visto que a graça é a origem da perfeição, a Igreja vê Maria preservada do pecado original.

[5] Como no caso de Zacarias e Isabel, há no Antigo Testamento uma infinidade de casos: Abraão e Sara etc.

[6] Ver in L’Osservatore Romano de 20 de agosto de 2011, p.6/7, a belíssima homilia proferida pelo Papa Bento XVI na missa por ocasião da Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria, na manhã de 15 de agosto, na Paróquia Pontifícia de S. Tomás de Vilanova em Castel Gandolfo (“Só as coisas de Deus merecem pressa”).

[7] Na Ladainha de Nossa Senhora aparece esse título mariano: “Arca da Aliança”. A tradição litúrgica bizantina honra Maria desde os tempos mais remotos como “a arca viva da aliança de Deus”, uma imagem que no Antigo Testamento é sinônimo de penhor da presença de Deus e de que se fala na leitura de 1Cr 15,3ss.

O que tornava a arca original tão santa? Não o ouro que revestia o exterior, mas os dez mandamentos no interior – a Lei que o dedo de Deus escreveu nas tábuas de pedra (cf. Dt 10,5). O que mais havia no interior? Maná, o pão milagroso que alimentou o povo na caminhada pelo deserto (o maná testemunhará diante das gerações futuras que Deus alimentou o povo no deserto: cf Ex 16,2-34); o bastão de Aarão que floresceu como sinal de sua função de sumo sacerdote (cf. Nm 17,16-26). Veja também, Hb 9,4.

O que torna a nova arca santa? O paralelismo explica: A antiga arca continha a palavra de Deus escrita na pedra; Maria trazia em seu seio a Palavra de Deus que se fez homem e habitou entre nós. A antiga continha maná; Maria trazia o pão vivo descido do céu. A antiga continha o bastão do sumo sacerdote Aarão; o seio de Maria continha o sumo sacerdote eterno, Jesus Cristo.

[8] Esta narrativa da juventude de Jesus deixa-nos uma sequência incômoda em que Maria, que sabe que Jesus é Filho de Deus (cf. Lc 1,35), não entende quando ele fala de seu Pai.

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