Dom Paulo Francisco Machado
As grandes enchentes, os devoradores incêndios por toda parte, o medo de uma nova guerra mundial, a insensatez nossa de consumidores vorazes já não deixam dúvidas de que o nosso amado planeta, chão pisado, água bebida e ar respirado está terrivelmente doente.
Há décadas, o historiador inglês Arnold Toynbee, apresentava São Francisco como necessário modelo de pessoa a ser imitado, diante da crise ecológica (Entrevista a El Pais,1972). Já o filósofo inglês, Alasdair MacIntyre, devido à crise moral de nossos dias pelo esquecimento do que é a virtude, nos dá condições de convivência saudável, e apontava para São Bento, e é a ele que esperamos, não por “Godot”.
Se tomarmos imediatamente as mais radicais providências, talvez não necessitemos buscar outro planeta habitável para a humanidade, como narra o romance de ficção “um Cântico para Leibowitz” de Walter Miller. Vi nesta obra um reconhecimento do poder civilizador de pessoas que oram e trabalham, lema beneditino.
A CF 25 tem por tema “Fraternidade e Ecologia Integral” e, por lema “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1.31). Ela toma a peito a grave questão ecológica e amplia o seu entendimento ao defender a “Ecologia Integral”. Assim, somos chamados à responsabilidade de cuidarmos da obra da criação e defendermos, porque somos irmãos, as pessoas mais frágeis, as mais sofridas com o colapso de nossa casa comum. É a vida como um todo – toda vida e a vida toda – a ser cuidada.
Como sempre, a Campanha da Fraternidade recebe inúmeras críticas. Afirma-se que o período quaresmal fica empobrecido, deturpado com o esquecimento dos exercícios quaresmais (jejum, esmola, abstinência, oração) preconizados de longa data pelo cristianismo. Quero lembrar a todos os leitores: o cristianismo é a religião do Verbo encarnado e a vida cristã se espelha em Jesus. Ele mesmo nos ensinou a oração do Pai nosso e, por isso somos chamados a buscar a intimidade com Deus e o compromisso com o próximo, nosso irmão, e assim a vida cristã é necessariamente fraterna. Se a primeira parte da oração cristã se reporta ao relacionamento filial com Deus; a segunda parte volta-se para nossas necessidades e atitudes para com os outros. Do Pai pedimos o pão cotidiano e com Ele aprendemos a misericórdia.
A CF procura atender ao quesito esmola. Realmente, no Domingo de Ramos iremos apresentar ao altar o fruto de nossos pequenos sacrifícios, quando entregamos a coleta da solidariedade. Os recursos serão empregados criteriosamente na promoção humana especialmente voltados para projetos relacionados à “Ecologia integral”.
Quanto ao jejum e à abstinência, inspiro-me em escritos do cardeal/poeta, e português José Tolentino de Mendonça. O jejum prescrito pela Igreja é para nos ensinar um estilo de vida mais simples, especialmente necessário em nossos dias para preservação da casa comum. Aqui, vejo um convite a tomar como modelo um pouco do jeito de Francisco, nesse ano que celebramos os 800 anos do conhecidíssimo “Cântico do sol”.
Jejum e abstinência promovem um jeito mais frugal de viver. Frugalidade é a palavra-chave para cuidar do planeta, seja no descarte de alimentos e outras coisas, a promover os proibidos lixões, no reuso de rejeitos, na economia de água, de energia, seja na doentia obsessão de consumir tudo o que os olhos veem, a tornar os lares um depósito de objetos que, muitas vezes, sequer são usados. Aqui, o jejum tem também uma função pedagógica, aumentando o campo de exercitarmos com mais responsabilidade a nossa liberdade, promovendo uma disciplina no uso das coisas. O jejum e a abstinência vão evitar que sejamos predadores vorazes da obra da criação.
Vamos jejuar pelo amor à obra do Criador.