Homilia: 16º Domingo do Tempo Comum

“Lc 10, 38-42”
Por Pe. Eduardo César Calil

Tempo de leitura estimado: 3 min

Reprodução

A Palavra caminha e tem pressa. E seus discípulos vão consigo, mas não sabem ser rejeitados, especialmente nos povoados que costumam ser resistentes. De repente, a Palavra entra num povoado sozinha, e entra numa casa, uma comunidade, portanto; e quem lhe abre a porta é… Uma mulher! Uma comunidade formada de irmãs: sem hierarquias, apenas a fraternidade; sem homens, apenas o protagonismo das mulheres. Elas são Marta e Maria. E antes que qualquer um possa opor essas duas mulheres, a uma criticando, a outra elogiando, opondo suas forças… Ou antes que posam torná-las forças complementares dizendo que uma é ativa e a outra contemplativa e, que são, então, duas metades, nós diremos: nem uma coisa nem outra.

Marta quebra barreiras e acolhe, hospeda, num lugar que cabe aos homens, na cultura de Jesus, já que são eles os responsáveis por receber as visitas. Uma mulher, primeiro, da coragem, quebrando costumes, deixando tradições, abrindo portas: para receber a Palavra. “Afinal, não negueis a hospitalidade, pois graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos” (Hb 13,2). Como o pai Abraão visitado por Deus, agora é Marta quem também entra no lugar da fé e coragem e o ocupa, hospedando o Senhor. E se põe a servir. E nenhum serviço, aqui, será condenado.

Maria também acolhe, sentando-se aos pés da Palavra e escutando-a. Nem devoção ou adoração aqui, mas escuta. E a escuta é a maior forma de hospitalidade. E se põe como discípula, numa cultura em que as mulheres não se podem fazer discípulas; nem aprender nem ensinar. Assim, também, rompe tradições, costumes, abrindo outras portas. Não é uma guardadora do lar, como se exigia, mas uma discípula. “Saulo se educou aos pés de Gamaliel” (At 22,3); Maria, aos pés de Jesus.

E o que dizer da Palavra que visita, que se deixa acolher, que acolhe no discipulado, a todos e todas? A virada de Jesus não é dar voz e protagonismo às mulheres, mas reconhecer que esse protagonismo e voz existem, acolhendo-os.

Mas Marta, ocupada com muitos afazeres para servir ao seu Senhor, pede a Jesus que ele mande Maria ajudá-la. Isso ecoa muito mais do que a gente imagina: muitas vezes podemos nos distrair e ser puxados para muitos lados e isso não tem a ver com o serviço disponível de Marta, mas com o fato de aparecer em sua fala um preconceito introjetado: será o lugar da mulher, o dos serviços da casa e não o da posição emancipada de discípula? Não é esse um possível conservadorismo estabelecido nas lógicas comunitárias?

Marta acaba dizendo mais do que diz. Não será ela, aqui, um testemunho de que pensamentos dominantes se entranham e se entranharam nas primeiras comunidades cristãs, para dizer que o lugar da mulher pode até ser o de servir, especialmente se for na cozinha, mas nunca o de discípula que escuta a Palavra, a interpreta e a anuncia?

Mas não há nenhuma condenação ou repreensão à Marta, nesse relato, mas chamado, vocação. Afinal, não foi assim que Deus chamou do meio da sarça: “Moisés, Moisés! (…)” (Ex 3, 4b). Não foi assim que ele chamou também Samuel, dizendo: “Samuel, Samuel” (1 Sm 3,4). Ou não foi assim que o Ressuscitado se apresentou a Saulo: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9,4).  Por que vemos repreensão onde há convite e chamado, portanto? “Marta, Marta!” (Lc 10, 41). Se Maria escolheu a melhor parte: sua posição livre, discipular, Marta é convidada a não perder isso, não deixando se levar pelas forças que puxam para longe do que ela já começou abrindo a porta e servindo.

Portanto, nem as opor, nem fazer delas duas metades, porque cada uma em sua singularidade e diferença é chamada à mesma escuta, ao mesmo caminho: o caminho da Palavra.