Dom Paulo Francisco Machado
O ser humano, mistério de plena e substancial integração entre matéria e espírito, maravilhosa junção destes dois mundos, tantas vezes prioriza o visível em detrimento do invisível. O Senhor Jesus chegou a nos advertir: “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma (Mt 16,26) ?
A precedência do corpo sobre a alma torna-nos propensos ao calamitoso e insensato desvio do caminho da Religião Cristã e aos surgimentos de novos templos para os “deuses atuais”. A catedral, com suas rendadas torres a apontar para o céu, para o infinito, é substituída pelas telas dos computadores e smart phones.
Vejamos.
Já há décadas, que o pensador romeno Mircea Eliade (+1986) descreveu uma exposição num salão de automóveis, como celebração secular e litúrgica com as “sacerdotisas,” magnificamente paramentadas com seus longos e brilhantes vestidos, a oficiar no templo do salão o culto ao automóvel, o grande objeto de desejo do homem contemporâneo.
Ao imaginar tal cena – pois, nunca frequentei esses ambientes – logo verifico tratar-se de um crasso materialismo, culto ateu, reverência suprema à matéria.
Hoje, abrem-se novas portas de novos templos a nos induzir, mediante o doentio consumismo, ao materialismo.
O novo edifício do ídolo Mamon não aponta para a eternidade, a sua bússola mantém-nos presos ao chão. Agora, o templo é o notebook e os deuses são os milhares de objetos apresentados de todos os lados por grandes e pequenas empresas do comércio virtual. Num simples click você vai em busca da satisfação dos seus sonhos de conforto, bem-estar e, até mesmo, de pura exibição. A tela é portadora de infindos badulaques na ânsia de plenificar nosso coração continuamente insatisfeito com as frias coisas, com os gélidos bens terrenos. Quem sabe um dia ouviremos e entenderemos o nosso coração a nos sussurrar que é o infinito, o Infinito Absoluto que nos saciará.
Lembremo-nos, o temporal não dessedenta nossa alma, criada para o Eterno, para a Vida Plena. Esta tem a contínua nostalgia do Céu, casa que o Senhor quer preparar para os que Lhe são fiéis. Insensatos! Com as coisas materiais estamos a esvaziar nossa alma das riquezas verdadeiras, as espirituais.
Talvez seria o caso de advertir aos compradores compulsivos, à maneira dos vendedores de bebidas alcoólicas: “Compre com moderação”. Ora, a moderação corresponde à virtude da temperança e, o chamado comércio VIRtual, com sua liturgia secular/materialista em nada favorece a VIRtude, a ser adquirida com prolongado esforço, inúmeras renúncias, sempre coadjuvados pela graça divina.
Não se enche o celeiro do coração com lixo, ou mesmo, com o trigo da terra, sujeito ao mofo e aos famintos carunchos. Deposite nele as boas obras, sempre estimuladas pelo Espírito Santo, seu doce hóspede.
Em dias assim, será preciso olhar e criativamente imitar homens modelares: São Francisco e São Bento. Ambos nos apontam para a necessária SOBRIEDADE. Esta é uma virtude, oposta ao vício de comprar, comprar, comprar…