Mariologia

2. Maria no Antigo Testamento: O Proto-evangelho

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Resumo

O texto apresenta Maria no Antigo Testamento a partir do Proto-evangelho (Gn 3,15): embora a referência direta seja a Eva e à sua descendência, a leitura à luz do sensus plenior e da unidade entre Antigo e Novo Testamento (LG 55) revela o Messias que vence a serpente e, com Ele, a Mãe do Redentor. Explica a questão textual (“ele/ela te esmagará”) e mostra como a Tradição entende Maria associada, de modo subordinado e integralmente gracioso, à vitória de Cristo. Assim, o capítulo fundamenta biblicamente e tradicionalmente a presença de Maria já “esboçada” no AT e realizada no NT.

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Introdução

            O Antigo Testamento não fala explicitamente sobre Maria Santíssima. Diante dessa negativa impõe-se então uma pergunta na mesma linha, porém, em sentido diverso: no Antigo Testamento terá sido prevista a figura de Maria?

Antes de dar resposta a essa questão devemos lembrar que Deus nos revelou um único mistério salvífico, em diversas etapas (cf. Hb 1,1)[1]. E o Concílio do Vaticano II ensina que a Revelação nos foi comunicada progressivamente[2], de maneira que o Antigo Testamento anuncia profeticamente o Novo[3]. Assim, existe uma unidade indissolúvel entre o Antigo e o Novo Testamento, que têm Deus como autor[4]: o primeiro contém o segundo e o segundo desvela em plenitude o significado do primeiro[5] (segundo um adágio antigo, o Novo Testamento está escondido no Antigo, ao passo que o Antigo é desvendado no Novo: “Novum in Vetere latet et in Novo Vetus patet[6]).

Portanto, diante do exposto, podemos responder afirmativamente à pergunta formulada. A propósito, afirma a Constituição Lumen Gentium: “Os livros do Antigo Testamento descrevem a história da salvação pela qual o advento de Cristo neste mundo é lentamente preparado. Estes documentos primitivos, tais como são lidos na Igreja e entendidos à luz da Revelação posterior e plena, manifestam com sempre maior nitidez a figura da mulher, Mãe do Redentor. Vista sob esta luz, ela já é profeticamente esboçada na promessa dada aos primeiros pais caídos no pecado, quando se fala da vitória sobre a serpente (cf. Gn 3,15). De modo semelhante é essa a Virgem que conceberá e dará à luz um Filho cujo nome será Emanuel (Is 7,14; cf. Mq 5,2-3; Mt 1,22-23). Ela mesma sobressai entre os humildes e pobres do Senhor que d’Ele esperam e recebem com fé a salvação. Com ela, enfim, excelsa Filha de Sião[7], depois de uma demorada espera da promessa, completam-se os tempos e se instaura a nova economia, quando o Filho de Deus assumiu dela a natureza humana a fim de livrar o homem do pecado pelos mistérios de sua carne” (LG 55).

Assim, embora o Antigo Testamento não fale explicitamente de Maria, alguns de seus textos, porém, ao tratar do Messias, referem-se à Mãe do Messias, ao menos quanto ao “sentido pleno” (sensus plenior)[8], que é aquele sentido que, embora não intencionado pelo hagiógrafo, o é por Deus, autor principal da Sagrada Escritura. Diz Bento XVI em Verbum Domini, 38: “De fato, a Palavra do próprio Deus nunca se apresenta na simples literalidade do texto. Para alcançá-la, é preciso transcender a literalidade num processo de compreensão, que se deixa guiar pelo movimento interior do conjunto […]”. E continua o Papa Bento XVI no citado documento pontifício: “Para se recuperar a articulação entre os diversos sentidos da Escritura, torna-se então decisivo identificar a passagem entre letra e espírito. Não se trata de uma passagem automática e espontânea; antes, é preciso transcender a letra”.

Após essas considerações, passemos ao estudo desses textos veterotestamentários que, numa exegese sóbria e científica, levam a descobrir a Mãe do Messias predita pelos profetas.

O Proto-evangelho: Gn 3,15

Como ensina o Catecismo da Igreja Católica ao falar do pecado original, “depois da queda, o homem não foi abandonado por Deus. Ao contrário, Deus o chama (“Iahweh Deus chamou o homem: ‘Onde estás?’” [cf. Gn 3,9]) e lhe anuncia de modo misterioso a vitória sobre o mal e o soerguimento da queda[9]” (CCE 410).

Eis o que se lê em Gn 3,15, onde Deus fala à serpente[10] (o Sedutor):

15Porei hostilidade entre ti e a mulher, entre a tua linhagem/(descendência) e a linhagem/(descendência) dela. Ela/(Esta) te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar[11].

É assim que se lê na tradução latina oficial da Vulgata. Analisemos, porém, esse versículo por partes, pois ele se prestou a mais de uma interpretação.

Notemos inicialmente que embora tanto a linhagem (descendência) da mulher quanto a da serpente atinja o adversário respectivo, há superioridade para aquela, pois ferir a cabeça é mais grave do que ferir o calcanhar.

Por outro lado devemos observar que no contexto de Gn 3, só há uma mulher: aquela que com Adão pecou, desobedecendo a Deus. Em conseqüência, o texto tomado literalmente se refere a Eva. Quanto à descendência da mulher, seriam todos os homens e mulheres fiéis a Deus através dos tempos. Deverão travar batalha contra o Sedutor, cabendo a vitória final à linhagem dos bons. É o que se depreende do texto, tal como o autor sagrado se expressou, completamente não messiânico.

O original hebraico, e a tradução grega (LXX), no entanto, começam a última frase por um pronome masculino, hûʼ, que transliterado do hebraico significa ele[12], e desta forma atribui essa vitória não à linhagem da mulher em geral, mas a um rebento (filho) da mulher. Assim fica esboçada a interpretação messiânica que muitos Padres explicitarão. E com o Messias fica naturalmente implicada sua Mãe.

  1. Jerônimo ao traduzir a Bíblia hebraica para o latim (Vulgata[13]) substituiu o pronome masculino hebraico hûʼ por ipsa (ela) conteret (esmagará) e assim essa tradução (errônea) acabou contribuindo para a interpretação mariológica de que a mulher (Maria) seria a vencedora da serpente, interpretação que se tornou tradicional na Igreja. Esse modo de entender tornou-se clássico entre os ocidentais de tal modo que na iconografia contemplamos a figura da Imaculada Conceição esmagando a cabeça da serpente. Mas mesmo tendo sido trocado hûʼ por ipsa (ela), a interpretação correta do texto de acordo com a tradução latina é: “Ela te esmagará a cabeça”, referindo ao substantivo anterior que é “linhagem”; por conseguinte devemos ler: “E a linhagem da mulher te esmagará a cabeça”, o que muitos interpretam: O filho da mulher te esmagará a cabeça.

Resumindo, hoje se sabe com toda a certeza que a tradução da Vulgata está errada e o correto é: “Ele (em hebraico, hûʼ) te esmagará a cabeça”. Este “ele” se refere à descendência (tomada em sentido coletivo) da mulher; refere-se, portanto, ao “gênero humano”, e assim cai por terra, naturalmente, toda referência expressa a Maria.

Mas a hermenêutica bíblica reconhece, no entanto, além do sentido literal, o sentido espiritual ou sentido pleno. Isso implica que as palavras do autor sagrado podem ter um sentido não percebido pelo autor humano; Deus, porém, que é o autor principal e supremo da Escritura Sagrada, terá intencionado esse ulterior significado da letra. É preciso não esquecer que a Bíblia, tendo Deus como autor principal, deve ser considerada como um só discurso ou uma só mensagem que se vai explicitando aos poucos[14]. Daí a necessidade de se comparar os textos bíblicos entre si: os mais antigos prenunciam os mais recentes e os mais recentes ilustram e revelam plenamente o sentido dos mais antigos. Isto se verifica com clareza, por exemplo, no Evangelho de São Mateus, quando afirma em numerosas passagens: “Isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor havia dito pelo profeta”[15].

Aplicando-se esse princípio a Gn 3,15, pode-se dizer que o descendente da mulher que concretamente pisou na cabeça da serpente ou do Tentador, foi o Messias. E a Mãe do Messias vitorioso foi Maria Santíssima. Por conseguinte, o sensus plenior aponta Maria e seu Filho como os protagonistas da luta decisiva contra a serpente e os agentes da vitória sobre a mesma. Em outras palavras, a Eva (mãe da vida, em hebraico) de Gn 3,15 inicia uma tarefa que só foi plenamente realizada por Maria, pois o texto sagrado nos diz que Eva foi pecadora ou esteve sob o domínio da serpente; ao contrário, Maria foi “cheia de graça” (cf. Lc 1,28) e nunca se dobrou sob o jugo do Maligno; ao contrário, colaborou para a vitória definitiva sobre ele.

Portanto, assim como Gn 3,2-7 apresenta a mulher (Eva) envolvida com o Tentador e o pecado para a ruína do gênero humano, assim Gn 3,15 apresenta a mulher (Eva plenamente realizada em Maria) intimamente associada ao Messias na obra de redenção do gênero humano. Assim a mulher (Eva), que introduziu o pecado no mundo, será também a introdutora da salvação ou do Salvador no mundo. O papel de Eva é recapitulado[16] em Maria.

Em conseqüência, pode-se dizer que na profecia de Gn 3,15 está contido, de modo ainda pálido, o núcleo de toda a Mariologia, ou seja, é apresentado o nexo estreito que existe entre o Redentor (o segundo Adão) e sua Mãe (a segunda Eva, ou a Mãe da Vida por excelência).

Essa passagem do Gênesis foi chamada de “Proto-evangelho”, por ser o primeiro anúncio da Boa Nova – o primeiro vislumbre da salvação[17] –, pois é o primeiro anúncio do Messias redentor. Neste “Proto-evangelho” a Igreja, ciente de estar ligada à Sagrada Escritura, jamais pôs em dúvida que também essa verdade sobre o mistério da eleição de Maria tivesse embrionariamente a sua base e o seu germe nos testemunhos da Revelação, mesmo se tal germe não pode ser trazido à luz apenas com os instrumentos da filologia científica. O fato de que as verdades de fé estejam contidas na Bíblia não significa que todas devam estar presentes da mesma maneira e com idêntico grau de explicitação. Desde o tempo da patrística viu-se expressa e indicada nessa passagem escriturística – juntamente com o Filho, vencedor da serpente – também Maria, qual segunda Eva esponsalmente unida ao segundo Adão.

A interpretação da Tradição

Dissemos que o Antigo Testamento há de ser considerado à luz do Novo, e vice-versa, pois constituem um só discurso de Deus aos homens. Acrescentamos que as Sagradas Letras como tal hão de ser relida à luz da Palavra viva que a antecede e acompanha. Com efeito, a Revelação de Deus aos homens foi feita primeiramente por via oral e só posteriormente foi cristalizada na escrita[18]. Por isso a leitura católica da Bíblia sempre leva em consideração o entendimento que os antigos intérpretes davam ao texto sagrado. A esses chamamos de Tradição Apostólica[19] e os seus pensamentos indicam linhas importantes do desenvolvimento mariológico.

Assim, desde a metade do século II, com São Justino[20], começa-se a usar a comparação Adão-Cristo/Eva-Maria[21] para expressar a participação ativa de Maria na obra salvadora de seu Filho. O mais distinto teólogo neste ponto, no entanto, é S. Irineu (†202), Bispo de Lion, considerado o pai da dogmática católica: “Da mesma forma que Eva se deixou seduzir para desobedecer a Deus, Maria se deixou persuadir a obedecer a Deus para ser ela – a Virgem Maria – a advogada de Eva, de sorte que o gênero humano, submetido à morte por uma virgem, fosse dela libertado por uma Virgem, tornando-se contrabalançada a desobediência de uma virgem pela obediência de outra. Assim o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria, porque aquilo que a virgem Eva, com a sua incredulidade, tinha amarrado foi desatado pela Virgem Maria com a sua fé” (Adversus Haereses). Temos assim um exemplo impressionante de releitura do Gênesis feita por Irineu, uma tipologia[22] que vai marcar duravelmente a tradição cristã.

À guisa de conclusão seja nos permitido dizer que o título “Nova Eva” é o primeiro título com o qual Maria é venerada pela tradição cristã.

Leitura complementar

Preparada pelo Altíssimo, prometida pelos Patriarcas”, S. Bernardo, abade, in Ofício das Leituras da terça-feira da 20ª semana do Tempo Comum.

O que era antigo passou, eis que tudo se fez novo”, S. André de Creta, bispo, in Ofício das Leituras da Natividade de Nossa Senhora, 8 de setembro.

Prof. Diác. Everaldo Ribeiro Franco

 

[1] CCE 54-67.

[2] Cf. DV 14.

[3] Cf. DV 15.

[4] Cf. DV 11.

[5] Cf. 2Cor 3,12-16. O nome Antigo Testamento é uma expressão cunhada por Paulo para indicar os escritos atribuídos a Moisés.

[6] S. Agostinho, Hept 2,73; cf. DV 16.

[7] Filha de Sião é a personificação feminina do povo de Deus (Israel, depois a Igreja). Maria é a filha de Sião, o Israel ideal, o lugar em que Deus estabelece sua morada. Sion era o nome da colina onde se situava a cidade de Jerusalém.

[8] O “sentido literal” é aquele que o escritor teve a intenção de dar, o sentido no qual se procurou um efeito histórico no momento em que foi escrito o texto. Tal sentido é tudo, menos óbvio. O “sentido pleno” é aquele desejado por Deus, à medida que a vontade de Deus supera a do escritor. A Pontifícia Comissão Bíblica define o “sentido pleno” como “um sentido mais profundo do texto, desejado por Deus, mas não claramente expresso pelo autor humano. Descobre-se sua existência em um texto bíblico quando se estuda esse texto à luz de outros textos bíblicos que o utilizam ou em sua relação com o desenvolvimento interno da Revelação”. Continua dizendo: “Seu fundamento é o fato de que o Espírito Santo, autor principal da Bíblia, pode guiar o autor humano na escolha de suas expressões de tal forma que estas últimas expressem uma verdade da qual ele não percebe toda a profundidade” (cf. p.100s, in A Interpretação da Bíblia na Igreja).

[9] A promessa do Redentor (Gn 3,15) é feita antes da sentença do castigo infligido a Adão e Eva (Gn 3,16ss).

[10] A serpente serve aqui de máscara para um ser hostil a Deus e inimigo do homem. Nela a Sabedoria, e depois o Novo Testamento e toda a tradição cristã, reconheceram o Adversário, o Diabo (cf. Jó 1,6).

[11] O texto hebraico, anunciando uma hostilidade entre a raça da serpente e a da mulher, opõe o homem ao Diabo e à sua “raça” e deixa entrever a vitória final do homem: é um primeiro vislumbre de salvação, o “Proto-evangelho”.

[12] No entanto, hûʼ se refere à descendência, um substantivo coletivo masculino em hebraico (zera‛, “semente, descendência”). A tradução da Bíblia de Jerusalém apresenta a tradução no pronome feminino (Ela), mas é correspondente à palavra linhagem (cf. p. 67, in Novo Comentário Bíblico São Jerônimo – Antigo Testamento, por Raymond E. Brown, Academia Cristã). O pronome hebraico hûʼ não deveria ser traduzido por ele, porque este especifica imediatamente um indivíduo do sexo masculino (é nesse sentido que este versículo é lido pelos cristãos, mas não era tal nos tempos pré-cristãos), ao passo que o hebraico fala de uma coletividade, “tua semente, tua descendência” (cf. p. 46s, in Aquele que há de vir, por Joseph A. Fitzmyer, Loyola).   

[13] A Vulgata latina traz ipsa conteret. Já a Nova Vulgata latina, que é hoje a Bíblia oficial da Igreja Católica, revista por determinação de Paulo VI e promulgada por João Paulo II, em 25 de abril de 1979, traz ipsum (ele) conteret. Ver p. 94-95 in Guia da Assembléia Cristã, v.9.

[14] Da Sagrada Escritura são tiradas deduções que não estão contidas nela explicitamente, mediante o aprofundamento espiritual e teológico que só a Igreja em seu conjunto – garantida pela promessa do Senhor – tem condições de efetuar, sem temer comprometer a verdade que salva (cf. CCE 66; 94). Numa linguagem mais apropriada diz-se: “A Bíblia, Livro de Deus e do homem, deve ser lida unificando corretamente o sentido histórico-literal e o sentido teológico-espiritual. Isso significa que, para uma exegese correta, é necessário o método histórico-crítico, convenientemente enriquecido de outras formas de abordagem, mas para alcançar o sentido total da Escritura é necessário servir-se dos critérios teológicos, repropostos pela Dei Verbum: ‘conteúdo e unidade de toda a Escritura, Tradição viva de toda a Igreja, analogia da fé’” (cf. Instrumentum Laboris da XII Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sobre o tema “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”, in L’Osservatore Romano, p. 13, 21/06/2008). Para ser ainda mais explicito, devemos dizer que a “analogia da fé” é um princípio hermenêutico em que nenhuma passagem da Escritura pode ser interpretada de forma que o significado alcançado seja conflitante em relação a outra passagem. Segundo esse princípio as Escrituras interpretam as Escrituras (“Sacra Scriptura sui interpres”, afirmava o santo Bispo de Hipona).

[15] Todo o Antigo Testamento, em verdade, é uma profecia daquilo que se realizaria com o evento Cristo. “Essa consideração mostra assim a importância insubstituível do Antigo Testamento para os cristãos, mas ao mesmo tempo evidencia a originalidade da leitura cristológica” (cf. VD 41). Nesse sentido a teologia cristã move-se dinamicamente de prefigurações para realidades mais plenas, das promessas de Deus a Israel para seu cumprimento por parte de Jesus e do seu Espírito.

[16] Isso quer dizer que Maria reconduziu todas as coisas à sua origem, a Deus.

[17] Será a história que explicará “post eventum” o sentido pleno do primeiro anúncio da salvação.

[18] A Igreja existiu antes dos Evangelhos, o espírito antes da letra, a religião de autoridade antes da religião de um livro. Assim, pois, a religião de Cristo não começou sendo uma religião do livro; no seu primeiro impulso ela foi uma Igreja viva, que pregava de viva voz a doutrina saída não da pena, mas dos lábios do Mestre. Por isso disse D. Salvatore Fisichella, Magnífico reitor da Pontifícia Universidade Lateranense e Arcebispo Titular de Voghenza durante a Quarta congregação geral da XII Assembléia geral ordinária do Sínodo dos Bispos sobre “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja” que “é necessário que na nossa linguagem [católica] não se caia na expressão equívoca ‘As três religiões do livro’, pois o cristianismo é a religião da ‘Palavra’”. Assim, no centro do cristianismo que não é a religião da Bíblia, está uma Pessoa que é Jesus Cristo: “Toda a Escritura divina é constituída de um único livro, e esse único livro é Cristo, porque toda a Escritura fala de Cristo e encontra em Cristo o seu cumprimento” (Hugo de São Vítor).

[19] O Vaticano II na Constituição Dogmática Dei Verbum, por fidelidade à realidade das coisas, fala primeiro da Tradição e depois da Escritura (ao contrário da ordem seguida pelo Tridentino), uma vez que a Tradição precedeu a Escritura. Por outro lado, já que a experiência da autocomunicação divina em Cristo é um fenômeno histórico (“Verbum caro factum est”), ela envolve necessariamente a Tradição, que não é senão a memória viva da Igreja. Assim, uma exegese que renuncia à dimensão histórica corre o risco de transformar-se em um jogo sem compromisso, em arte pela arte.

[20] São Justino, filósofo e mártir, foi o primeiro apologista cristão que defendeu a fé. Justino não é de origem judaica, embora nascido na Samaria por volta do ano 100 d.C. Sua conversão ao cristianismo parece ter ocorrido por volta do ano 132. Foi decapitado, segundo a tradição, no ano 165.

[21] O paralelismo entre Eva-Maria foi modelado sobre o paralelismo paulino entre Adão e Cristo (cf. Rm 5,14; 1Cor 15,45-49).

[22] A construção “tipológica” assim se caracteriza: “um ou vários acontecimentos e personagens pertencentes a uma época antiga, e uma semelhança, ou correspondência, ou continuidade com uma situação e acontecimentos e personagens do presente” (p. 50, in A Escritura viva, Elisabeth Parmentier, Loyola). “A tipologia descobre nas obras de Deus, na Antiga Aliança, prefigurações do que o mesmo Deus realizou, na plenitude dos tempos, na pessoa do seu Filho encarnado” (Verbum Domini 41). A título de aprofundamento seja dito que o termo typos se encontra em Rm 5,14 (Adão era um tipo de Cristo) e em 1Cor 10,6 (coisas que aconteceram a Israel no deserto durante o êxodo são tipos para os cristãos). Os Padres falavam desse sentido típico como “alegoria” ou como o “sentido místico”; Tomás de Aquino o conhecia como o “sentido espiritual”. Alguns autores recentes fazem uma distinção nítida entre tipologia e alegoria: a tipologia se baseia em conexões históricas, enquanto que a alegoria é puramente imaginativa.

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