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Introdução
O Antigo Testamento não fala explicitamente sobre Maria Santíssima. Diante dessa negativa impõe-se então uma pergunta na mesma linha, porém, em sentido diverso: no Antigo Testamento terá sido prevista a figura de Maria?
Antes de dar resposta a essa questão devemos lembrar que Deus nos revelou um único mistério salvífico, em diversas etapas (cf. Hb 1,1)[1]. E o Concílio do Vaticano II ensina que a Revelação nos foi comunicada progressivamente[2], de maneira que o Antigo Testamento anuncia profeticamente o Novo[3]. Assim, existe uma unidade indissolúvel entre o Antigo e o Novo Testamento, que têm Deus como autor[4]: o primeiro contém o segundo e o segundo desvela em plenitude o significado do primeiro[5] (segundo um adágio antigo, o Novo Testamento está escondido no Antigo, ao passo que o Antigo é desvendado no Novo: “Novum in Vetere latet et in Novo Vetus patet”[6]).
Portanto, diante do exposto, podemos responder afirmativamente à pergunta formulada. A propósito, afirma a Constituição Lumen Gentium: “Os livros do Antigo Testamento descrevem a história da salvação pela qual o advento de Cristo neste mundo é lentamente preparado. Estes documentos primitivos, tais como são lidos na Igreja e entendidos à luz da Revelação posterior e plena, manifestam com sempre maior nitidez a figura da mulher, Mãe do Redentor. Vista sob esta luz, ela já é profeticamente esboçada na promessa dada aos primeiros pais caídos no pecado, quando se fala da vitória sobre a serpente (cf. Gn 3,15). De modo semelhante é essa a Virgem que conceberá e dará à luz um Filho cujo nome será Emanuel (Is 7,14; cf. Mq 5,2-3; Mt 1,22-23). Ela mesma sobressai entre os humildes e pobres do Senhor que d’Ele esperam e recebem com fé a salvação. Com ela, enfim, excelsa Filha de Sião[7], depois de uma demorada espera da promessa, completam-se os tempos e se instaura a nova economia, quando o Filho de Deus assumiu dela a natureza humana a fim de livrar o homem do pecado pelos mistérios de sua carne” (LG 55).
Assim, embora o Antigo Testamento não fale explicitamente de Maria, alguns de seus textos, porém, ao tratar do Messias, referem-se à Mãe do Messias, ao menos quanto ao “sentido pleno” (sensus plenior)[8], que é aquele sentido que, embora não intencionado pelo hagiógrafo, o é por Deus, autor principal da Sagrada Escritura. Diz Bento XVI em Verbum Domini, 38: “De fato, a Palavra do próprio Deus nunca se apresenta na simples literalidade do texto. Para alcançá-la, é preciso transcender a literalidade num processo de compreensão, que se deixa guiar pelo movimento interior do conjunto […]”. E continua o Papa Bento XVI no citado documento pontifício: “Para se recuperar a articulação entre os diversos sentidos da Escritura, torna-se então decisivo identificar a passagem entre letra e espírito. Não se trata de uma passagem automática e espontânea; antes, é preciso transcender a letra”.
Após essas considerações, passemos ao estudo desses textos veterotestamentários que, numa exegese sóbria e científica, levam a descobrir a Mãe do Messias predita pelos profetas.
O Proto-evangelho: Gn 3,15
Como ensina o Catecismo da Igreja Católica ao falar do pecado original, “depois da queda, o homem não foi abandonado por Deus. Ao contrário, Deus o chama (“Iahweh Deus chamou o homem: ‘Onde estás?’” [cf. Gn 3,9]) e lhe anuncia de modo misterioso a vitória sobre o mal e o soerguimento da queda[9]” (CCE 410).
Eis o que se lê em Gn 3,15, onde Deus fala à serpente[10] (o Sedutor):
15Porei hostilidade entre ti e a mulher, entre a tua linhagem/(descendência) e a linhagem/(descendência) dela. Ela/(Esta) te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar[11].
É assim que se lê na tradução latina oficial da Vulgata. Analisemos, porém, esse versículo por partes, pois ele se prestou a mais de uma interpretação.
Notemos inicialmente que embora tanto a linhagem (descendência) da mulher quanto a da serpente atinja o adversário respectivo, há superioridade para aquela, pois ferir a cabeça é mais grave do que ferir o calcanhar.
Por outro lado devemos observar que no contexto de Gn 3, só há uma mulher: aquela que com Adão pecou, desobedecendo a Deus. Em conseqüência, o texto tomado literalmente se refere a Eva. Quanto à descendência da mulher, seriam todos os homens e mulheres fiéis a Deus através dos tempos. Deverão travar batalha contra o Sedutor, cabendo a vitória final à linhagem dos bons. É o que se depreende do texto, tal como o autor sagrado se expressou, completamente não messiânico.
O original hebraico, e a tradução grega (LXX), no entanto, começam a última frase por um pronome masculino, hûʼ, que transliterado do hebraico significa ele[12], e desta forma atribui essa vitória não à linhagem da mulher em geral, mas a um rebento (filho) da mulher. Assim fica esboçada a interpretação messiânica que muitos Padres explicitarão. E com o Messias fica naturalmente implicada sua Mãe.
Resumindo, hoje se sabe com toda a certeza que a tradução da Vulgata está errada e o correto é: “Ele (em hebraico, hûʼ) te esmagará a cabeça”. Este “ele” se refere à descendência (tomada em sentido coletivo) da mulher; refere-se, portanto, ao “gênero humano”, e assim cai por terra, naturalmente, toda referência expressa a Maria.
Mas a hermenêutica bíblica reconhece, no entanto, além do sentido literal, o sentido espiritual ou sentido pleno. Isso implica que as palavras do autor sagrado podem ter um sentido não percebido pelo autor humano; Deus, porém, que é o autor principal e supremo da Escritura Sagrada, terá intencionado esse ulterior significado da letra. É preciso não esquecer que a Bíblia, tendo Deus como autor principal, deve ser considerada como um só discurso ou uma só mensagem que se vai explicitando aos poucos[14]. Daí a necessidade de se comparar os textos bíblicos entre si: os mais antigos prenunciam os mais recentes e os mais recentes ilustram e revelam plenamente o sentido dos mais antigos. Isto se verifica com clareza, por exemplo, no Evangelho de São Mateus, quando afirma em numerosas passagens: “Isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor havia dito pelo profeta”[15].
Aplicando-se esse princípio a Gn 3,15, pode-se dizer que o descendente da mulher que concretamente pisou na cabeça da serpente ou do Tentador, foi o Messias. E a Mãe do Messias vitorioso foi Maria Santíssima. Por conseguinte, o sensus plenior aponta Maria e seu Filho como os protagonistas da luta decisiva contra a serpente e os agentes da vitória sobre a mesma. Em outras palavras, a Eva (mãe da vida, em hebraico) de Gn 3,15 inicia uma tarefa que só foi plenamente realizada por Maria, pois o texto sagrado nos diz que Eva foi pecadora ou esteve sob o domínio da serpente; ao contrário, Maria foi “cheia de graça” (cf. Lc 1,28) e nunca se dobrou sob o jugo do Maligno; ao contrário, colaborou para a vitória definitiva sobre ele.
Portanto, assim como Gn 3,2-7 apresenta a mulher (Eva) envolvida com o Tentador e o pecado para a ruína do gênero humano, assim Gn 3,15 apresenta a mulher (Eva plenamente realizada em Maria) intimamente associada ao Messias na obra de redenção do gênero humano. Assim a mulher (Eva), que introduziu o pecado no mundo, será também a introdutora da salvação ou do Salvador no mundo. O papel de Eva é recapitulado[16] em Maria.
Em conseqüência, pode-se dizer que na profecia de Gn 3,15 está contido, de modo ainda pálido, o núcleo de toda a Mariologia, ou seja, é apresentado o nexo estreito que existe entre o Redentor (o segundo Adão) e sua Mãe (a segunda Eva, ou a Mãe da Vida por excelência).
Essa passagem do Gênesis foi chamada de “Proto-evangelho”, por ser o primeiro anúncio da Boa Nova – o primeiro vislumbre da salvação[17] –, pois é o primeiro anúncio do Messias redentor. Neste “Proto-evangelho” a Igreja, ciente de estar ligada à Sagrada Escritura, jamais pôs em dúvida que também essa verdade sobre o mistério da eleição de Maria tivesse embrionariamente a sua base e o seu germe nos testemunhos da Revelação, mesmo se tal germe não pode ser trazido à luz apenas com os instrumentos da filologia científica. O fato de que as verdades de fé estejam contidas na Bíblia não significa que todas devam estar presentes da mesma maneira e com idêntico grau de explicitação. Desde o tempo da patrística viu-se expressa e indicada nessa passagem escriturística – juntamente com o Filho, vencedor da serpente – também Maria, qual segunda Eva esponsalmente unida ao segundo Adão.
A interpretação da Tradição
Dissemos que o Antigo Testamento há de ser considerado à luz do Novo, e vice-versa, pois constituem um só discurso de Deus aos homens. Acrescentamos que as Sagradas Letras como tal hão de ser relida à luz da Palavra viva que a antecede e acompanha. Com efeito, a Revelação de Deus aos homens foi feita primeiramente por via oral e só posteriormente foi cristalizada na escrita[18]. Por isso a leitura católica da Bíblia sempre leva em consideração o entendimento que os antigos intérpretes davam ao texto sagrado. A esses chamamos de Tradição Apostólica[19] e os seus pensamentos indicam linhas importantes do desenvolvimento mariológico.
Assim, desde a metade do século II, com São Justino[20], começa-se a usar a comparação Adão-Cristo/Eva-Maria[21] para expressar a participação ativa de Maria na obra salvadora de seu Filho. O mais distinto teólogo neste ponto, no entanto, é S. Irineu (†202), Bispo de Lion, considerado o pai da dogmática católica: “Da mesma forma que Eva se deixou seduzir para desobedecer a Deus, Maria se deixou persuadir a obedecer a Deus para ser ela – a Virgem Maria – a advogada de Eva, de sorte que o gênero humano, submetido à morte por uma virgem, fosse dela libertado por uma Virgem, tornando-se contrabalançada a desobediência de uma virgem pela obediência de outra. Assim o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria, porque aquilo que a virgem Eva, com a sua incredulidade, tinha amarrado foi desatado pela Virgem Maria com a sua fé” (Adversus Haereses). Temos assim um exemplo impressionante de releitura do Gênesis feita por Irineu, uma tipologia[22] que vai marcar duravelmente a tradição cristã.
À guisa de conclusão seja nos permitido dizer que o título “Nova Eva” é o primeiro título com o qual Maria é venerada pela tradição cristã.
Leitura complementar
“Preparada pelo Altíssimo, prometida pelos Patriarcas”, S. Bernardo, abade, in Ofício das Leituras da terça-feira da 20ª semana do Tempo Comum.
“O que era antigo passou, eis que tudo se fez novo”, S. André de Creta, bispo, in Ofício das Leituras da Natividade de Nossa Senhora, 8 de setembro.
Prof. Diác. Everaldo Ribeiro Franco
[1] CCE 54-67.
[2] Cf. DV 14.
[3] Cf. DV 15.
[4] Cf. DV 11.
[5] Cf. 2Cor 3,12-16. O nome Antigo Testamento é uma expressão cunhada por Paulo para indicar os escritos atribuídos a Moisés.
[6] S. Agostinho, Hept 2,73; cf. DV 16.
[7] Filha de Sião é a personificação feminina do povo de Deus (Israel, depois a Igreja). Maria é a filha de Sião, o Israel ideal, o lugar em que Deus estabelece sua morada. Sion era o nome da colina onde se situava a cidade de Jerusalém.
[8] O “sentido literal” é aquele que o escritor teve a intenção de dar, o sentido no qual se procurou um efeito histórico no momento em que foi escrito o texto. Tal sentido é tudo, menos óbvio. O “sentido pleno” é aquele desejado por Deus, à medida que a vontade de Deus supera a do escritor. A Pontifícia Comissão Bíblica define o “sentido pleno” como “um sentido mais profundo do texto, desejado por Deus, mas não claramente expresso pelo autor humano. Descobre-se sua existência em um texto bíblico quando se estuda esse texto à luz de outros textos bíblicos que o utilizam ou em sua relação com o desenvolvimento interno da Revelação”. Continua dizendo: “Seu fundamento é o fato de que o Espírito Santo, autor principal da Bíblia, pode guiar o autor humano na escolha de suas expressões de tal forma que estas últimas expressem uma verdade da qual ele não percebe toda a profundidade” (cf. p.100s, in A Interpretação da Bíblia na Igreja).
[9] A promessa do Redentor (Gn 3,15) é feita antes da sentença do castigo infligido a Adão e Eva (Gn 3,16ss).
[10] A serpente serve aqui de máscara para um ser hostil a Deus e inimigo do homem. Nela a Sabedoria, e depois o Novo Testamento e toda a tradição cristã, reconheceram o Adversário, o Diabo (cf. Jó 1,6).
[11] O texto hebraico, anunciando uma hostilidade entre a raça da serpente e a da mulher, opõe o homem ao Diabo e à sua “raça” e deixa entrever a vitória final do homem: é um primeiro vislumbre de salvação, o “Proto-evangelho”.
[12] No entanto, hûʼ se refere à descendência, um substantivo coletivo masculino em hebraico (zera‛, “semente, descendência”). A tradução da Bíblia de Jerusalém apresenta a tradução no pronome feminino (Ela), mas é correspondente à palavra linhagem (cf. p. 67, in Novo Comentário Bíblico São Jerônimo – Antigo Testamento, por Raymond E. Brown, Academia Cristã). O pronome hebraico hûʼ não deveria ser traduzido por ele, porque este especifica imediatamente um indivíduo do sexo masculino (é nesse sentido que este versículo é lido pelos cristãos, mas não era tal nos tempos pré-cristãos), ao passo que o hebraico fala de uma coletividade, “tua semente, tua descendência” (cf. p. 46s, in Aquele que há de vir, por Joseph A. Fitzmyer, Loyola).
[13] A Vulgata latina traz ipsa conteret. Já a Nova Vulgata latina, que é hoje a Bíblia oficial da Igreja Católica, revista por determinação de Paulo VI e promulgada por João Paulo II, em 25 de abril de 1979, traz ipsum (ele) conteret. Ver p. 94-95 in Guia da Assembléia Cristã, v.9.
[14] Da Sagrada Escritura são tiradas deduções que não estão contidas nela explicitamente, mediante o aprofundamento espiritual e teológico que só a Igreja em seu conjunto – garantida pela promessa do Senhor – tem condições de efetuar, sem temer comprometer a verdade que salva (cf. CCE 66; 94). Numa linguagem mais apropriada diz-se: “A Bíblia, Livro de Deus e do homem, deve ser lida unificando corretamente o sentido histórico-literal e o sentido teológico-espiritual. Isso significa que, para uma exegese correta, é necessário o método histórico-crítico, convenientemente enriquecido de outras formas de abordagem, mas para alcançar o sentido total da Escritura é necessário servir-se dos critérios teológicos, repropostos pela Dei Verbum: ‘conteúdo e unidade de toda a Escritura, Tradição viva de toda a Igreja, analogia da fé’” (cf. Instrumentum Laboris da XII Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sobre o tema “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”, in L’Osservatore Romano, p. 13, 21/06/2008). Para ser ainda mais explicito, devemos dizer que a “analogia da fé” é um princípio hermenêutico em que nenhuma passagem da Escritura pode ser interpretada de forma que o significado alcançado seja conflitante em relação a outra passagem. Segundo esse princípio as Escrituras interpretam as Escrituras (“Sacra Scriptura sui interpres”, afirmava o santo Bispo de Hipona).
[15] Todo o Antigo Testamento, em verdade, é uma profecia daquilo que se realizaria com o evento Cristo. “Essa consideração mostra assim a importância insubstituível do Antigo Testamento para os cristãos, mas ao mesmo tempo evidencia a originalidade da leitura cristológica” (cf. VD 41). Nesse sentido a teologia cristã move-se dinamicamente de prefigurações para realidades mais plenas, das promessas de Deus a Israel para seu cumprimento por parte de Jesus e do seu Espírito.
[16] Isso quer dizer que Maria reconduziu todas as coisas à sua origem, a Deus.
[17] Será a história que explicará “post eventum” o sentido pleno do primeiro anúncio da salvação.
[18] A Igreja existiu antes dos Evangelhos, o espírito antes da letra, a religião de autoridade antes da religião de um livro. Assim, pois, a religião de Cristo não começou sendo uma religião do livro; no seu primeiro impulso ela foi uma Igreja viva, que pregava de viva voz a doutrina saída não da pena, mas dos lábios do Mestre. Por isso disse D. Salvatore Fisichella, Magnífico reitor da Pontifícia Universidade Lateranense e Arcebispo Titular de Voghenza durante a Quarta congregação geral da XII Assembléia geral ordinária do Sínodo dos Bispos sobre “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja” que “é necessário que na nossa linguagem [católica] não se caia na expressão equívoca ‘As três religiões do livro’, pois o cristianismo é a religião da ‘Palavra’”. Assim, no centro do cristianismo que não é a religião da Bíblia, está uma Pessoa que é Jesus Cristo: “Toda a Escritura divina é constituída de um único livro, e esse único livro é Cristo, porque toda a Escritura fala de Cristo e encontra em Cristo o seu cumprimento” (Hugo de São Vítor).
[19] O Vaticano II na Constituição Dogmática Dei Verbum, por fidelidade à realidade das coisas, fala primeiro da Tradição e depois da Escritura (ao contrário da ordem seguida pelo Tridentino), uma vez que a Tradição precedeu a Escritura. Por outro lado, já que a experiência da autocomunicação divina em Cristo é um fenômeno histórico (“Verbum caro factum est”), ela envolve necessariamente a Tradição, que não é senão a memória viva da Igreja. Assim, uma exegese que renuncia à dimensão histórica corre o risco de transformar-se em um jogo sem compromisso, em arte pela arte.
[20] São Justino, filósofo e mártir, foi o primeiro apologista cristão que defendeu a fé. Justino não é de origem judaica, embora nascido na Samaria por volta do ano 100 d.C. Sua conversão ao cristianismo parece ter ocorrido por volta do ano 132. Foi decapitado, segundo a tradição, no ano 165.
[21] O paralelismo entre Eva-Maria foi modelado sobre o paralelismo paulino entre Adão e Cristo (cf. Rm 5,14; 1Cor 15,45-49).
[22] A construção “tipológica” assim se caracteriza: “um ou vários acontecimentos e personagens pertencentes a uma época antiga, e uma semelhança, ou correspondência, ou continuidade com uma situação e acontecimentos e personagens do presente” (p. 50, in A Escritura viva, Elisabeth Parmentier, Loyola). “A tipologia descobre nas obras de Deus, na Antiga Aliança, prefigurações do que o mesmo Deus realizou, na plenitude dos tempos, na pessoa do seu Filho encarnado” (Verbum Domini 41). A título de aprofundamento seja dito que o termo typos se encontra em Rm 5,14 (Adão era um tipo de Cristo) e em 1Cor 10,6 (coisas que aconteceram a Israel no deserto durante o êxodo são tipos para os cristãos). Os Padres falavam desse sentido típico como “alegoria” ou como o “sentido místico”; Tomás de Aquino o conhecia como o “sentido espiritual”. Alguns autores recentes fazem uma distinção nítida entre tipologia e alegoria: a tipologia se baseia em conexões históricas, enquanto que a alegoria é puramente imaginativa.