Mariologia

3. Maria no Antigo Testamento: A Mãe do Messias

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Resumo

O texto examina a presença de Maria no AT à luz do sensus plenior e da unidade entre AT/NT. Em Is 7,14, no contexto histórico da guerra siro-efraimita, o “sinal” refere-se, no sentido literal, ao nascimento de Ezequias e à continuidade davídica; mas, em plenitude, aponta para o Emanuel, aplicado por Mateus a Jesus e, portanto, à sua Mãe. Em Mq 5,1-3, o “governante” que “sairá de Belém-Éfrata” designa, literalmente, um herdeiro de Davi, aberto, porém, à leitura messiânica cristã (Mt 2,5-6). O capítulo explica a natureza bíblica da profecia e conclui que, sem traçar um quadro detalhado, o AT delineia a Mãe do Messias, realizada no NT.

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Introdução

Há ainda dois outros textos do Antigo Testamento que, segundo a visão católica de interpretação alegórica e tipológica, falam da Mãe do Messias, e que são Is 7,14 e Mq 5,1, sendo o primeiro o mais importante, uma vez que o evangelista São Mateus irá aplicá-lo a Maria.

Analisemos cada um deles.

Isaías 7,14

Nesse texto isaiano o profeta diz ao rei Acaz de Israel:

14Pois sabei que o Senhor mesmo vos dará um sinal: Eis que a jovem está grávida e dará à luz um filho e dar-lhe-á o nome de Emanuel.

Devemos inicialmente dizer que esse texto se refere a uma determinada situação histórica: a dinastia davídica, à qual estão ligadas as promessas (cf. 2Sm 7,12-16), está em perigo. O contexto histórico desta profecia ou, de outro modo, os antecedentes deste versículo são os seguintes:

Pelo ano 1.000 a.C. Davi tomou Jerusalém e fez dela a capital do seu Reino, que incluía as tribos[1] do Sul e do Norte. Seu filho Salomão, uma vez no trono, organizou este Reino. Com a morte de Salomão, em 933, o Reino se dividiu em dois: o de Judá no Sul, com capital em Jerusalém, e o de Israel no Norte, com capital em Samaria. O Reino de Judá permaneceu fiel à dinastia de Davi, e dele haveria de vir ao mundo o Messias prometido. Já o Reino de Israel rompera com a dinastia davídica, e por isso era considerado um Reino cismático[2]. Isaías pregou em Jerusalém entre 740 e 700. Grande poeta, político sagaz, mas, antes de tudo profeta, Isaías exerceu grande influência em seu tempo.

A situação política do tempo de Isaías era complexa, e esta famosa profecia foi pronunciada em momento particularmente difícil para o Reino de Judá. Por volta de 735 reinava em Judá Acaz (736-716), filho de Joatão e, por conseguinte, descendente de Davi. Ao Norte, o rei Facéia (737-732) da Samaria e o rei Rasin da Síria (Aram) se coligaram para derrubar o pesado jugo da Assíria (a superpotência que era uma ameaça para todo o Oriente Próximo e Médio), que constituía uma ameaça, e quiseram forçar o rei de Jerusalém a entrar nesta coalizão. Acaz, porém, recusou-se a participar dessa coligação. Em conseqüência, os dois fizeram a chamada guerra siro-efraimita para depor Acaz e colocar em seu lugar um sucessor, filho de Tabeel, de origem não davídica (cf. Is 7,1.6; 2Rs 16,5-9). Foi aí que deu ocasião os principais oráculos de Isaías, que sofria com a falta de fé do rei Acaz, que em vez de temer a Deus, temeu homens insignificantes, em vez de pôr sua confiança em Deus, confiou em homens (cf. Is 7,4.7-9). Diante da ameaça crescente, pois Jerusalém chegou a ficar sitiada (cf. 2Rs 16,5), a única saída para Acaz foi pedir ajuda ao rei assírio Teglat-Falasar III (745-727), celebrando com este um pacto de proteção. Acaz, desorientado pela coalizão Damasco-Samaria, em lugar de pedir o auxílio de Deus, faz imolar aos ídolos seu único filho (cf. 2Rs 16,3), pondo assim em perigo a promessa de Deus a Davi. Todavia a política de alianças com povos estrangeiros era proibida em Judá, pois essas alianças acarretavam perigo de contaminação religiosa para o povo messiânico (cf. 2Rs 16,7-16; 2Cr 28,16-20). Assim, este pacto de proteção, por um lado, garante a Acaz a segurança e salva o seu país da destruição, mas por outro, exige como preço a adoração das divindades estatais da potência protetora. Uma coisa, porém, era clara: se Acaz concluísse o pacto com o grande rei assírio, isso significaria que ele, como homem político, confiava mais no poder do rei que na força de Deus, a qual, evidentemente, não lhe parecia suficientemente real. Em última análise, portanto, tratava-se aqui não de um problema político, mas de uma questão de fé.

Foi então que Deus enviou o profeta Isaías ao rei Acaz para anunciar-lhe que, apesar de tudo e contra tudo, Deus mantinha a sua promessa. Nesse contexto Isaías diz ao rei, para tranquilizá-lo em suas aflições, que não deve ter medo diante daquelas nações que se uniram e, conseqüentemente, não havia motivo algum para o pacto de proteção com a Assíria[3], e que outro menino já estava a caminho. Assim Isaías, consciente da infidelidade do rei e de não ter sido escutado (cf. Is 7,1-9), lembra a Acaz a necessidade da confiança em Deus e de que a dinastia davídica permanecerá (cf. Is 7,96): “Conserva a calma e não tenhas medo… Se não o credes, não vos mantereis firmes” (Is 7,4-9). E já que o profeta exigia de Acaz uma atitude de fé muito intensa, indo totalmente contra o costume o profeta ofereceu ao rei um sinal[4], penhor da incolumidade do rei de Judá: “Pede um sinal a Iahweh, teu Deus, ou nas profundezas do Xeol, ou nas alturas” (Is 7,11). Mas Acaz não estava disposto a mudar a sua política de associação com a Assíria e, cheio de falácia, recusou hipocritamente o sinal, como quem não quer tentar a Deus pedindo milagres (cf. Is 7,12)[5]. Em conseqüência dessa recusa o profeta irritado, em nome de Deus, propôs o sinal ao monarca incrédulo, que superará de longe tudo o que Acaz pudesse imaginar: “Pois sabei que o Senhor mesmo vos dará um sinal: Eis que a jovem está grávida e dará à luz um filho e dar-lhe-á o nome de Emanuel” (Is 7,14).

O anúncio é solene e para entendê-lo, é preciso identificar quem seja esse Emanuel e quem seja a jovem mãe desse menino[6] que já se encontra grávida. Mais ainda: “como Isaías entendeu o sinal anunciado? A isto se objeta antes de tudo que, na verdade, é anunciado a Acaz um sinal que lhe seria dado naquele momento para trazê-lo à fé no Deus de Israel como verdadeiro Senhor do mundo; por conseguinte, o sinal deveria ser procurado e identificado no contexto histórico do tempo em que foi anunciado pelo profeta” (Bento XVI, in A infância de Jesus, p. 46).

A exegese desse texto, que no passado foi considerada extremamente difícil, com grande sutileza e lançando mão de todas as possibilidades da erudição histórica, pôs-se à procura de uma explicação histórica contemporânea do desenrolar dos fatos. E desse modo, hoje, a interpretação estabelece um nexo entre o nascimento desse menino e os acontecimentos contemporâneos à profecia[7]. A força do texto faz-nos pensar numa jovem determinada e concreta, suficientemente conhecida pelo rei e pelo profeta. A confirmá-lo está o artigo definido “a” (e não “uma” jovem), no original hebraico, que exige este conhecimento; logo, fala de uma pessoa que, de algum modo, é conhecida. Destarte a maioria dos exegetas hoje vê nesse menino o rei Ezequias[8], filho de Acaz, que já estava a caminho, pois a jovem esposa de Acaz estava grávida, garantia da continuidade da dinastia davídica. Todo o contexto da passagem isaiana indica que o profeta estava falando de uma contemporânea sua, e certamente não estava anunciando o nascimento de uma criança que ia acontecer daí a 700 anos[9]. A maior objeção à interpretação messiânica desse texto é esta: “Como pode Emanuel, a criança messiânica do futuro distante e impenetrável, ser um verdadeiro sinal para o rei Acaz, do século VIII?”[10]. Portanto, o sentido literal de tal passagem fala de Ezequias, enquanto o sensus plenior[11] remete ao Messias esperado, conforme depois Mateus e com ele toda a tradição cristã reconheceu nessas palavras o anúncio do nascimento de Cristo. A profecia do Emanuel ultrapassa desse modo sua realização imediata[12], e foi legitimamente assim que Mateus aplicou o oráculo ao nascimento de Cristo[13] (cf. Mt 1,23). Esse, sim, é a garantia de que a dinastia de Davi não será destronada; por causa do Messias, prometido a Davi e à sua descendência, é que Acaz não será desapossado da realeza; a casa de Acaz, que é a casa de Davi, deverá permanecer incólume, porque a ela foi prometido o Messias como descendente de Davi.

Miquéias 5,1-3

Miquéias exerceu seu ministério apenas alguns anos após Isaías, sendo considerado como seu herdeiro espiritual. No livro do profeta Miquéias[14] lê-se uma das profecias messiânicas mais conhecidas e acerca da qual toda a tradição patrística se pronunciou com mais fé e apologia do que com preocupação exegética. Quiseram ler no Antigo Testamento o que só foi escrito na revelação do Novo. E aquilo que é rigorosamente verdadeiro à luz do cristianismo, não o é do mesmo modo na perspectiva do profeta. Em verdade um intérprete cristão do Antigo Testamento deveria ser capaz de concordar com um intérprete judeu das Escrituras Hebraicas quanto ao sentido literal de uma dada passagem, antes que o cristão invoque seu significado canônico. Com efeito, o sentido canônico cristão do Antigo Testamento é um “a mais”, um sentido acrescentado ao significado literal do Antigo Testamento. Aquele significado pode ser um significado “fechado” para o intérprete judeu, mas permanece “aberto” para o intérprete cristão, que precisa contar com o sentido literal em sua formulação histórica e levar em consideração todos os aspectos que ele possa ter que lhe permitam ser “aberto” à interpretação subseqüente.

Eis o oráculo segundo o TM (Texto Massorético)[15]:

1E tu, Belém-Éfrata, pequena entre os clãs de Judá, de ti sairá para mim aquele que governará Israel. Suas origens são de tempos antigos, de dias imemoráveis. 2Por isso ele os abandonará até o tempo em que a parturiente dará à luz. Então o resto de seus irmãos voltará para os israelitas. 3Ele se erguerá e apascentará o rebanho pela força de Iahweh, pela glória do nome de seu Deus. Eles se estabelecerão, pois então ele será grande até os confins da terra.

Diante desse texto, seja dito que para o profeta o futuro governante permanece anônimo; ele não é chamado “Messias” e não há nenhuma indicação de que as palavras do profeta devam ser assim interpretadas[16]. Ele é simplesmente o herdeiro davídico do trono em algum período vindouro. O novo “governador em Israel” não nascerá em Jerusalém, mas na minúscula e insignificante cidade e clã de Belém-Éfrata, lembrada como aquela de onde veio Davi (cf. 1Sm 16,18-19). O contraste é entre a humilde Belém e a eminente Sião. O “mim” refere-se ao Senhor, que profere tais palavras e que, assim, ratifica o governo do novo herdeiro davídico. Sua origem é de “tempos antigos”, porque ele será descendente de Davi, que reinou aproximadamente de 1000 a 962 a.C[17].

Este mesmo versículo é interpretado messianicamente na tradução aramaica do targum[18]:

“Tu, porém, Belém-Éfrata, eras como que demasiado pequena para seres enumerada entre as milhares das casas de Judá; de ti sairá, em Minha presença, o Messias para exercer o domínio sobre Israel. Seu nome foi mencionado desde antigamente, desde dias imemoráveis”.

A última frase deste versículo formula uma convicção a respeito da existência pré-mundo do Messias, ou seja, antes da criação do mundo.

Mas voltemos ao TM, onde se concede um sentido cristão (um sentido formulado pela tradição cristã) acrescentado ao referido texto do Antigo Testamento.

No mesmo contexto de idéias da profecia isaiana pertence a profecia de Miquéias, trinta anos posterior à de Isaías. Menciona aquela que, no tempo messiânico, “deverá dar à luz” o Dominador de Israel, de antiqüíssima estirpe, oriundo de Belém-Éfrata[19]. A interpretação messiânica fica clara (na visão cristã), sobretudo pelo versículo 2 em que o profeta supõe Israel humilhado por seus inimigos e abandonado por Deus, porém, não definitivamente, mas “até o tempo em que a parturiente dará à luz” um soberano, cheio do poder de Deus. A referência à Mãe do Messias fica, pois, evidente[20]. Também esse vaticínio foi aplicado pelos autores do Novo Testamento a Cristo: Mt 2,5-6; Jo 7,41-42.

O autor deixa a sua profecia na penumbra, evita pormenores, prefere o misterioso porque, com a mesma certeza com que prevê a realidade futura, desconhece o modo da sua realização. Da mesma forma, quando fala de Belém de Éfrata, a aldeia onde nascera Davi e em cujos campos andava a apascentar os seus rebanhos quando foi escolhido por Deus para apascentar o seu povo, não nos diz que seja ali, naquele local, que há de nascer o Messias, mas que “sairá” dali, que é como quem diz, descenderá da dinastia de Davi. O evangelista Mateus, porém, na resposta que os sábios dão a Herodes (cf. Mt 2,5-6), recorda-nos a maneira como era entendido nos tempos de Jesus, ou seja, geograficamente.

Por fim, de quanto foi dito até aqui, é claro que não se pode esperar encontrar no Antigo Testamento um quadro mariológico muito nítido. Importa, porém, verificar que as profecias messiânicas (segundo a visão católica) mais antigas já delineiam alguns traços de Maria, concebida como Mãe do Salvador.

Excurso

Com relação à questão da profecia[21] devemos acrescentar alguns esclarecimentos adicionais extraídos da Sagrada Escritura.

Segundo uma visão comum e equivocada, profeta[22] é simplesmente o homem que prediz o futuro, que sabe o que acontecerá antes da ocorrência. A Bíblia de Jerusalém, na Introdução aos profetas, afirma que o profeta fala em nome de Deus e sabe que fala em nome desse Deus. Tem a consciência da origem divina da mensagem que transmite e a introduz, dizendo – “Assim fala Iahweh”, ou “Palavra de Iahweh”, ou “Oráculo de Iahweh”. Não é alguém que anuncia o futuro, mas, antes, alguém que fala em nome de Deus, alguém que fora introduzido nos planos de Deus (cf. Am 3,7) e que daí por diante via tudo com os olhos de Deus. O profeta está intimamente unido ao Senhor da história e ao seu povo. É um homem com os pés no chão, profundamente atento aos acontecimentos do seu tempo e não um especialista no calendário dos acontecimentos futuros.

Mas se o profeta tem certeza de falar em nome de Deus, como reconhecerão seus ouvintes que ele é profeta autêntico? Pois existem falsos profetas, que aparecem com freqüência na Bíblia. Como saber então que a mensagem provém realmente de Deus? Como distinguir a verdadeira profecia? Jeremias ocupa lugar importante na reflexão teológica sobre a revelação, pois tentou determinar os critérios da autêntica palavra de Deus.

Há, segundo a Bíblia, dois critérios: 1º) o cumprimento da profecia sobre o anúncio de acontecimentos próximos, isto é, a realização da palavra do profeta: (“Só quando se realizar a palavra do profeta é que será reconhecido como profeta que Iahweh realmente enviou”[23] [Jr 28,9]; “Como vamos saber se tal palavra não é uma palavra de Iahweh? Se o profeta fala em nome de Iahweh, mas a palavra não se cumpre, não se realiza, trata-se então de uma palavra que Iahweh não disse. Tal profeta falou com presunção. Não o temas!” [Dt 18,22]); 2º) mas sobretudo a conformidade do ensinamento com a doutrina javista, ou seja, a fidelidade a Iahweh e à religião tradicional (Jr 23,22; Dt 13,2-6).

Por fim, do que se falou acima sobre o profeta, uma coisa deve ficar bem clara: o profeta é escolhido por Deus com vistas a Cristo!

Prof. Diác. Everaldo Ribeiro Franco

 

[1] Com a morte de Salomão, a monarquia ficou fatalmente desagregada. A dinastia de Davi continuou a controlar Judá e Benjamim, e todas as outras tribos (as dez tribos do Norte) se retiraram a fim de formarem sua própria monarquia, a qual levava o nome nacional abrangente de Israel, em contraste com a conservação do nome tribal de Judá para o Reino do Sul. Para ver o território ocupado por cada uma das doze tribos, ver p. 137 in Introdução Socioliterária à Bíblia Hebraica, de Norman K. Gottwald, Paulus.

[2] O Reino do Norte caiu sob os assírios em 722 a.C. e o Reino do Sul sucumbiu para a Babilônia em 586 a.C.

[3] Se a ameaça exterior começava a pesar fortemente sobre o Reino do Sul, no entanto era preciso lembrar que Deus havia feito aliança com Israel (cf. Sl 89,4-5) e que esta escolha era a prova de que o povo eleito valia mais que todos os outros. Por que então esse aniquilamento de Israel? Essa é a posição de Isaías.

[4] Talvez tenha sido uma última tentativa do profeta para que o rei mudasse de idéia e pusesse toda a sua esperança de salvação em Deus e não em carros e cavalos.

[5] A resposta do rei de Judá parece devota: não quer tentar a Deus nem quer pedir qualquer sinal. Referindo-se a uma lei antiga “Não tentareis o Senhor, vosso Deus” (cf. Dt 6,16; Ex 17,2) o rei tentou esquivar-se de uma confrontação direta com o profeta (cf. Is 7,12). Não nos esqueçamos, porém, de que Acaz mandara imolar seu filho aos deuses, conforme 2Rs 16,3.

[6] É importante perceber, então, que “o sinal que o rei Acaz recusou pedir é-lhe dado, no entanto, por Deus. É o nascimento de um menino cujo nome, Emanuel, isto é, “Deus-conosco” é profético e anuncia que Deus vai proteger e abençoar Judá. […] Será, pois, por meio de um rei, descendente de Davi, que Deus dará a salvação ao povo; é na permanência da linhagem davídica que repousa a esperança dos fiéis em Deus” (retirado da nota x, referente a Is 7,14, Bíblia de Jerusalém). Portanto não se trata de um nome próprio, mas de uma indicação de que Deus não abandonou sua promessa. Ver p.31-32 in Guia da Assembléia Cristã, v.9.

[7] Antes do aparecimento do método crítico moderno, judeus e cristãos em geral aceitavam a idéia de que os profetas hebreus prenunciaram o futuro distante. Entretanto, essa concepção da profecia como prognóstico do futuro distante desapareceu dos estudos mais sérios. A maioria dos autores modernos acredita que os profetas do Antigo Testamento lidaram com a sua própria época e com a época imediatamente posterior, e não com a longínqua história cristã (p.41, in Maria no Novo Testamento, R. E. Brown et alii, Paulinas). Assim, profecia não consiste em miraculoso conhecimento do futuro; pelo contrário, profetas são seres humanos que, em virtude de especial proximidade de Deus, possuem uma visão especialmente vigilante para sua época e que, a partir desse “saber”, anunciam ao mundo que os cerca em que situação ele se encontra, quais as chances e ameaças que o esperam, para onde os levará seu comportamento e o que tem a esperar de Deus.

[8] Essa era também uma antiga interpretação judaica, conhecida de Justino (Diálogo, 1xvii, 1), um dos poucos monarcas verdadeiramente religiosos da casa de Davi (cf. p. 175, in O nascimento do Messias, Raymond E. Brown, Paulinas). Sobre Ezequias, ver 2 Cr 29ss.

[9] É preciso ter em mente que num primeiro momento, Israel não tem o olhar posto num messias pessoal (messias, “ungido”, é usado no Antigo Testamento para indicar o rei de Israel e o sacerdote). Espera simplesmente o reinado de Deus. Trata-se antes de uma idéia religiosa em evolução, que se vai purificando por etapas. Na época da monarquia a linhagem davídica foi sendo considerada como messiânica, embora não se esperasse que uma pessoa particular fosse necessariamente o messias. De sorte que nesta época, o messias é mais um símbolo da realeza davídica do que uma pessoa. Em Israel, o rei sempre foi considerado como um ser puramente humano, embora instrumento de Deus no governo e direção do povo. Daí vem que, embora nas épocas florescentes da monarquia se esperasse um messias rei, nunca se teve propriamente a idéia de que este seria um Filho de Deus (como é evidente, dado o monoteísmo absoluto de Israel). Foi com a derrocada da monarquia (o fim da monarquia no reino de Judá ocorreu em 587, com Sedecias) que se purificou a expectativa de um Messias, que perdurou até a aparição de Cristo (cf. pp. 71-78, in Ele é a nossa salvação, por Carlos Ignacio González, Loyola; cf. Aquele que há de vir, por Joseph A. Fitzmyer, para um estudo sobre a evolução do messianismo em Israel).

[10] Cf. p. 56, in Aquele que há de vir, Joseph A. Fitzmyer, Loyola.

[11] A Pontifícia Comissão Bíblica, no documento A interpretação da Bíblia na Igreja, de 1993, assim define o sentido pleno: “um sentido mais profundo do texto, desejado por Deus, mas não claramente expresso pelo autor humano. Descobre-se sua existência em um texto bíblico quando se estuda esse texto à luz de outros textos bíblicos que o utilizam ou em sua relação com o desenvolvimento interno da Revelação”. Na realidade o sensus plenior é uma outra forma da teoria da prefiguração, que vê a intenção de Deus refletir-se em certos textos do Antigo Testamento, sem que o autor humano o saiba, mas que Deus teria colocado na Escritura para ser descoberto mais tarde. Outros autores recusam especular sobre o que Deus pretendia em termos de referência cristã quando inspirou determinada passagem veterotestamentária, e preferem concentrar-se no que o autor do Novo Testamento entendeu ao ler o Antigo.

Os que vêem nesse oráculo um anúncio do Messias vaticinado por Isaías pressentem, pela solenidade dada ao oráculo e pelo forte significado do nome simbólico posto ao menino – Emanuel, “Deus-conosco”, um título que Ezequias não preenche. Por outro lado, aqueles que vêem nesse menino o filho de Acaz, afirmam que ele foi um sinal da presença salvífica de Deus (o nascimento de um herdeiro para o trono é a garantia de que Iahweh protege o reino) e, portanto, “Deus-conosco”, ou seja, a criança prometida irá garantir o futuro da dinastia e, assim, simbolizaria a presença de Deus “conosco” (Emanuel). Pelo contexto histórico do oráculo, não restam dúvidas de que nos encontramos perante os elementos próprios das promessas dinásticas. Tanto o menino como o seu nome são um sinal da permanência das promessas davídicas. Esse herdeiro possibilitou que a linhagem davídica sobrevivesse. Em outras palavras: o menino, concebido de maneira natural, esclareceria o cuidado providencial de Deus por seu povo e ajudaria a preservar a casa de Davi e, assim, simbolizaria a presença de Deus “conosco”.

Quando, no início da nossa era, uma jovem chamada Maria ficar grávida sem concurso de varão e der à luz um filho, síntese do humano e do divino, e em cuja vida, morte e ressurreição confluem todos os anúncios de Isaías contidos nos capítulos conhecidos pelo “Livro do Emanuel” (Is 6-12), já ninguém poderá negar a projeção messiânica e salvífica daquele Emanuel de Isaías, cuja maturidade nos foi revelada em Cristo, embora o Salvador nascido da Virgem não tenha sido chamado Emanuel..

[12] É essa uma característica da profecia: ela não é como a história, onde os fatos se desdobram do passado para o futuro. A profecia, ao contrário, tem o seu ponto de partida no futuro, ela depende do futuro e tem sua justificativa no futuro. Um fato do presente a indicar um acontecimento futuro: eis a profecia.

[13] Mateus mostra que as palavras antigas se tornam realidade na história de Jesus; e, simultaneamente, mostra que a história de Jesus é verdadeira, isto é, provém da Palavra de Deus, é sustentada e permeada por ela. O evangelista mostra que desse modo se cumpre aquilo que estava predito na Escritura. Isso faz parte da estrutura fundamental do seu Evangelho: fornecer uma “prova da Escritura” para todos os acontecimentos essenciais, a fim de deixar claro que as palavras da Escritura aguardavam por tais eventos e os prepararam em seu significado íntimo. Por isso entre exegese crítica e interpretação cristológica se estabelece certa complementaridade. Convém, aliás, lembrar que o messianismo judaico exprime um ideal que até o exílio sempre se encarnou numa pessoa concreta. Pode se ver no pensamento de Isaías um Messias ideal, entretanto, aqui se encarna, sobretudo, em Ezequias. Será preciso aguardar os intérpretes ulteriores a Isaías para que esse ideal messiânico seja percebido na pessoa de um rei único e escatológico. Miquéias 5,2 já dará um passo neste sentido, uma vez que teve tempo de verificar que Ezequias não tinha a envergadura do Messias (O messianismo de Miquéias participa, pois, das esperanças depositadas por Isaías, na raça davídica, mas nele estes anseios se tingem de pobreza e modéstia: é o Davi-pastor de Belém [1Sm 16] que será o futuro pastor do povo [Mq 5,3] e não o Davi glorioso da Cidade real). A versão da LXX irá mais longe ainda, fazendo daquela que deve conceber uma virgem. Finalmente, Mt 1,22-23 a ultrapassará e mostrará a realização de profecia messiânica de Isaías em Maria Virgem.

[14] Embora Miquéias fosse contemporâneo de Isaías (século VIII), suas palavras a respeito da futura restauração da dinastia davídica provêm de uma data pós-exílica (veja a referência ao exílio na Babilônia em 4,10).

[15] TM é o texto hebraico da tradição judaica estabelecido entre os séculos VII e IX d.C. por sábios judeus, que fixaram a sua grafia e vocalização.

[16] J. Becker insiste com razão: “Não há nenhum indício para verdadeiro messianismo até o segundo século a.C.”.

[17] Para maiores aprofundamentos, ver p. 71-72, in Aquele que há de vir, por Joseph A. Fitzmyer, Loyola.

[18] O targum, tradução aramaica das Escrituras Hebraicas, foi composto para registrar uma tradição de interpretação fixa. Era uma produção literária tanto quanto o próprio TM hebraico (cf. p. 163, in Aquele que há de vir, por Joseph A. Fitzmyer, Loyola).

[19] O texto hebraico identifica esta cidade de Éfrata (cf. Js 15,59; Rt 4,11) como Belém. É a cidade de Jessé e de seu filho Davi, que foi escolhido para ser rei das doze tribos de Israel. Veja também Gn 35,19; Rt 4,11 (o lugar da tumba de Raquel).

[20] Cf. nota x da Bíblia de Jerusalém, referente a Mq 5,2.

[21] Os especialistas afirmam que as primeiras leituras do Quarto Domingo do Advento, nos seus três ciclos, lembram as profecias mais importantes de todo o Antigo Testamento. No entanto, nenhum dos três profetas invocados teve consciência da envergadura de sua visão e do gênio de sua mensagem, ou seja, nenhum tinha o sensus plenior.

[22] As pessoas que se familiarizaram com a Bíblia aprenderam a rejeitar as interpretações fantasiosas pretéritas, que se faziam, de que o profeta tinha uma visão fotográfica de um futuro próximo ou distante que, de alguma maneira, tinha relevância para o povo ao qual ele havia sido enviado para revelar a Palavra de Deus. O profeta não vê a história estendida diante de si como um mapa, a partir do qual ele só precisa eleger eventos futuros individuais. Tal previsão não é um dom do profeta. Se a predição era concedida ao profeta, isso ocorria sempre nos termos das contingências que ele conhecia e que seriam compreendidas por seus ouvintes. A profecia de Isaías sobre a invasão de Senaquerib (10,27-34) é um exemplo clássico: a profecia foi cumprida, mas sob circunstâncias não visionadas pelo profeta. Em definitivo: não é da natureza da profecia ver o futuro como uma fotografia.

[23] A realização de uma profecia, dentro de um prazo breve, tal que possa ser comprovada por aqueles que a ouviram, é um sinal que autentica a mensagem de um profeta (cf. Jr 20,6; 29,32; 44,29-30; 45,5; Dt 18,21).

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