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Introdução
O Evangelho de São João foi chamado de “o Evangelho espiritual”[1], que quer dizer “animado pelo Espírito”, mas também poderia ser chamado “o Evangelho dos significados mais profundos”. O primeiro epíteto foi reservado ao Evangelho de São João por causa da profundeza do olhar que ele lança sobre o mistério de Cristo. É fruto de antiga tradição oral e de sucessivas redações, das quais a final deve ser fixada em torno do ano100 d.C.
Os dois textos nos quais a figura de Maria aparece com destaque – se bem que João fala-nos de Maria sem jamais nomeá-la[2]; refere-se a ela como a Mãe de Jesus ou sua Mãe – são a narração das bodas de Caná (Jo 2,1-12), e a cena da Mãe aos pés da cruz (Jo 19,25-27). Quanto ao restante, as referências a ela são escassas. Assim Jo 1,13 (“Ele [o Verbo], que não foi gerado nem do sangue, nem de uma vontade da carne, nem de uma vontade do homem, mas de Deus”), referido ao Verbo, que veio entre os seus, contém referência à concepção no seio da Mãe por obra de Deus, sem contribuição de paternidade humana. João seria então testemunha desse dado decisivo da fé, não diversamente de Mateus e Lucas. Outra referência clara à Mãe de Jesus se encontra em Jo 6,42, inserida no discurso de Jesus na sinagoga de Cafarnaum e no qual os judeus murmuravam contra Jesus dizendo: “Esse não é Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? Como diz agora: ‘Eu desci do céu’?!” O que é negado pelos judeus, a saber, que Jesus “desceu do céu” (v.38), está no centro da afirmação de Jesus. Os judeus não o admitem pela razão de que “José é seu pai”. Mas se Deus, seu Pai, mora “no céu”, é evidente que Jesus desceu do céu. Essa passagem quer registrar, portanto, uma polêmica baseada no contraste entre as origens humildes do Nazareno e a sua pretensão messiânica.
Enfim, é significativo que em Jo 7,1-10, que menciona a incredulidade dos irmãos de Jesus (“Pois nem mesmo os seus irmãos criam nele”, v.5) Maria não seja mencionada, se bem que esteja presente com eles (“Desceram a Cafarnaum, ele, sua mãe, seus irmãos e seus discípulos”, Jo 2,12). Seria uma indicação de João da perseverança dela na fé, até nos momentos mais difíceis?
Passemos às duas passagens mais significativas.
As núpcias de Caná
A perícope traz-nos o seguinte relato:
1No terceiro dia, houve um casamento em Caná da Galiléia e a mãe de Jesus estava lá. 2Jesus foi convidado para o casamento e os seus discípulos também. 3Ora, não havia mais vinho, pois o vinho do casamento tinha-se acabado. Então a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm mais vinho”. 4Respondeu-lhe Jesus: “Que queres de mim, mulher? Minha hora ainda não chegou”. 5Sua mãe disse aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser”. 6Havia ali seis talhas de pedra para a purificação dos judeus, cada uma contendo de duas a três medidas. 7Jesus lhes disse: “Enchei as talhas de água”. Eles as encheram até à borda. 8Então lhes disse: “Tirai agora e levai ao mestre-sala”. Eles levaram. 9Quando o mestre-sala provou a água transformada em vinho – ele não sabia de onde vinha, mas o sabiam os serventes que haviam retirado a água – chamou o noivo 10e lhe disse: “Todo homem serve primeiro o vinho bom e, quando os convidados já estão embriagados serve o inferior. Tu guardaste o vinho bom até agora!” 11Esse princípio dos sinais, Jesus o fez em Caná da Galiléia e manifestou a sua glória e os seus discípulos creram nele. 12Depois disso, desceram a Cafarnaum, ele, sua mãe, seus irmãos e seus discípulos, e ali ficaram apenas alguns dias.
A narração das bodas de Caná tem certamente intenção cristológica, tendo por objetivo colocar Jesus em relevo como o Messias que se apresenta com o seu primeiro sinal[3], suscitando a fé dos discípulos (v.11). Por ser o primeiro sinal de Jesus, a atenção dispensada à sua Mãe a situa, desde o começo, numa importância particular em relação à totalidade do mistério do Cristo joanino[4]. Aí ela já aparece no seu papel de Mãe e Medianeira[5], intercedendo, no limiar da vida pública de Jesus, pelos homens.
A narração é introduzida pela fórmula “no terceiro dia” (v.1) que recorda, de um lado, a revelação do Sinai (cf. Ex 19,11)[6] – do outro, o acontecimento da ressurreição: “Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei […] falava do templo do seu corpo” (Jo 2,19-21). Assim esse milagre tem significação típica: passagem (superação) da Antiga Aliança para a Nova, da Lei para o Espírito, o advento da Igreja (“e os seus discípulos creram nele”), tudo isso realizado sobre o poder de intercessão de Maria (que não faz nenhuma tentativa para influenciar seu Filho de maneira determinante) e a grandeza da sua fé (“Fazei tudo o que ele vos disser”).
Foi Maria quem notou a dificuldade[7]: “Eles não têm mais vinho” (v.3). O vinho é citado cinco vezes na narração, com forte acento na qualidade e na abundância desse produto do milagre. O fundo veterotestamentário ajuda a ver no vinho abundante um sinal dos tempos messiânicos, a presença do tempo da salvação (cf., por exemplo, Am 9,13: “As montanhas destilarão vinho novo e ele escorregará pelas colinas”), que caracterizará o banquete messiânico (cf. Is 25,6) e será oferecido gratuitamente (cf. Is 55,1). Sob essa luz, o banquete nupcial de Caná aparece como o sinal da chegada do tempo prometido e da intervenção salvífica de Deus, que enche de maneira superabundante a espera e transforma a água de purificação da Lei antiga (cf. v.6) no vinho novo do Reino: “As jarras […] cheias de água da Lei de Moisés representam o legalismo judaico. Jesus transforma essa água no vinho da Lei nova, manifestando-se a si mesmo”[8]. A água da letra é transformada no vinho do Espírito!
Quanto a resposta de Jesus à sua Mãe: “Mulher, o que queres de mim? Minha hora ainda não chegou”, que alguns vêem como uma resposta insólita nos lábios de Jesus, a maior parte dos Padres e a grande exegese católica vê uma alusão ao Proto-evangelho (Gn 3,15) e sugere uma relação entre a mulher Eva e Maria qual nova Eva[9]. O termo “mulher” faz passar para um segundo plano o aspecto da maternidade[10]. Por outro lado, com essa resposta Jesus quer mostrar que a sua “hora”, na qual todos acreditarão nele, é a hora da cruz[11]. Essa hora não pode ser antecipada![12] É na hora de Cristo que o tempo messiânico se manifestará como cumprimento das promessas.
A cena do Calvário
25Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena. 26Jesus, então, vendo sua mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse à sua mãe: “Mulher, eis o teu filho!” 27Depois disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!” E a partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa.
A cena da Mãe ao lado da cruz e as palavras dirigidas por Jesus agonizante à sua Mãe e ao discípulo que ele amava contêm denso valor simbólico e teológico, o que não quer dizer puro simbolismo, sem historicidade[13]. O golpe de lança desferido pelo soldado, a água e o sangue que saíram do lado de Cristo (v.34) têm tanta historicidade que o autor do Quarto Evangelho afirma solenemente seu testemunho (v.35). Antes de tudo chama a atenção a relação entre essa cena e a de Caná. Também aqui o evangelista fala da presença da “mãe de Jesus” (Jo 2,1; 19,25), chamada também aqui “mulher” (Jo 2,4; 19,26). O que no primeiro dos sinais é prefigurado, aqui é sua realização, pois chegou a “hora” de Jesus. As duas personagens presentes à cruz ambas têm, embora de modo diferente, relação com a Igreja. A Mãe de Jesus torna-se a Mãe do discípulo – a entrega de Maria a João a faz supor viúva e sem outros filhos – e de todos os discípulos, e nesse sentido Maria tornou-se a Mãe da Igreja[14]. De sua parte, portanto, o discípulo amado representa todos os discípulos de Cristo, os fiéis da Igreja. Assim, o último ato de Jesus antes de morrer foi o de formar o povo messiânico – a Igreja, o novo Israel de Deus – na pessoa da Mãe e do discípulo amado. A maternidade divina em relação a Cristo amplia-se na maternidade universal. Em virtude do Espírito Santo, Maria torna-se “nossa mãe na ordem da graça” (LG 61), para cooperar na regeneração e na formação dos filhos de Deus (cf. LG 63).
A visão da mulher e do dragão no Apocalipse
Eis o relato do vidente:
1Um sinal grandioso apareceu no céu: uma Mulher vestida com o sol, tendo a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas; 2estava grávida e gritava, entre as dores do parto, atormentada para dar à luz. 3Apareceu então outro sinal no céu: um grande Dragão, cor de fogo, com sete cabeças e dez chifres e sobre as cabeças sete diademas; 4sua cauda arrastava um terço das estrelas do céu, lançando-as para a terra. O Dragão colocou-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho, tão logo nascesse. 5Ela deu à luz um filho, um varão, que irá reger todas as nações com um cetro de ferro. Seu filho, porém, foi arrebatado para junto de Deus e de seu trono, 6e a Mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe havia preparado um lugar em que fosse alimentada por mil duzentos e sessenta dias. 7Houve então uma batalha no céu: Miguel e seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com seus Anjos, 8mas foi derrotado, e não se encontrou mais um lugar para eles no céu. 9Foi expulso o grande Dragão, a antiga serpente, o chamado Diabo ou Satanás, sedutor de toda a terra habitada – foi expulso para a terra, e seus Anjos foram expulsos com ele. 10Ouvi então uma voz forte do céu, proclamando: “Agora realizou-se a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus, e a autoridade do seu Cristo: porque foi expulso o acusador dos nossos irmãos, aquele que os acusava dia e noite diante do nosso Deus. 11Eles, porém, o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho, pois desprezaram a própria vida até à morte. 12Por isso, alegrai-vos, ó céu, e vós que o habitais! Ai da terra e do mar, porque o Diabo desceu para junto de vós cheio de grande furor, sabendo que lhe resta pouco tempo”. 13Ao ver que fora expulso para a terra, o Dragão pôs-se a perseguir a Mulher que dera à luz o filho varão. 14Ela, porém, recebeu as duas asas da grande águia para voar ao deserto, para o lugar em que, longe da Serpente, é alimentada por um tempo, tempos e metade de um tempo. 15A Serpente, então, vomitou água como um rio atrás da Mulher, a fim de submergi-la. 16A terra, porém, veio em socorro da Mulher: a terra abriu sua boca e engoliu o rio que o Dragão vomitara. 17Enfurecido por causa da Mulher, o Dragão foi então guerrear contra o resto dos seus descendentes, os que observam os mandamentos de Deus e mantêm o Testemunho de Jesus.
Seja-nos permitido dizer inicialmente que a intenção global do autor do Apocalipse é assegurar a seus leitores a vitória final em tempos de perseguição. O livro do Apocalipse apresenta, no seu capítulo 12,1-18, um episódio complexo, cuja interpretação é muito difícil. Em síntese, eis o seu conteúdo.
Inicia apresentando um “sinal grandioso” (v.1), que aparece no céu, pondo em relevo a figura que é o objeto do sinal, uma “mulher” (v.1), que dá à luz um filho (v.5). A esse sinal se opõe outro: o “dragão” (v.3). A mulher foge para o deserto, onde Deus lhe preparou refúgio (v.6), enquanto se desenrola a luta entre Miguel e os seus anjos contra o dragão (vv.7ss), que é vencido e, por isso, precipitado sobre a terra, se lança contra a mulher e a sua descendência (vv.13 e 17), que não sucumbirão (vv.14 e 16).
Pergunta-se agora: qual o sentido dessa perícope?
A primeira visão é de luta! De um lado, uma mulher grávida (v.2); do outro, um dragão de fogo, “a antiga serpente, o chamado Diabo ou Satanás, sedutor de toda a terra” (v.9). Essa luta foi anunciada em Gn 3,15, que anuncia a inimizade perene entre a “mulher” e a serpente, entre a descendência desta e a daquela, descendência que esmagará a cabeça da serpente.
A mulher dá à luz “um filho, um varão, que regerá todas as nações com cetro de ferro”, logo “arrebatado para junto de Deus e de seu trono” (v.5). De que são figura esse parto e a imediata exaltação? Com relação à mulher há uma dupla interpretação: ela é Maria a Mãe do Messias-rei, mas é também figura da Igreja – o novo Israel, o povo santo dos tempos messiânicos –, perseguida na sua peregrinação terrena[15]. Por sua vez a conexão entre as dores da mulher, a hostilidade do dragão e a elevação do filho da mulher induz a pensar no mistério pascal: o menino morre, ressuscita, sobe ao céu, onde está sentado à direita do Pai com poder (v.5). Mais ainda, a mulher é libertada da ameaça do dragão e foge para o deserto (v.6). É o povo de Deus que sai do Egito para o deserto (cf. Ex 16). É a Igreja que acabara de nascer, já em meio a perseguições.
Digna de nota é a apresentação da mulher: “vestida com o sol, tendo a lua sob os pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas” (v.1). O sol é, por excelência, a fonte da luz, imagem da soberania e transcendência de Deus. Sendo a lua o astro pelo qual são medidos os tempos (cf. Gn 1,14-19), ter a lua sob os pés significa que a mulher tem assegurada a vitória sobre a sucessão das estações, isto é, ela não sucumbirá às vicissitudes terrenas. A coroa de doze estrelas lembra, quer as tribos do antigo Israel (cf. o sonho de José em Gn 37,9), quer “os doze apóstolos do Cordeiro” (Ap 21,10.12.14), fundamento da nova Jerusalém.
Finalizando, segundo os estudiosos modernos é por conseguinte possível, mas não segura, no que diz respeito à intenção do vidente, a referência secundária a Maria em Ap 12. Mais seguro é que o seu símbolo da mulher, da qual nasce o Messias, pôde bem se prestar a uma interpretação mariológica, quando o interesse marial se desenvolveu na comunidade cristã posterior. E eventualmente quando o Apocalipse foi colocado no cânon da Escritura[16] (junto com o Evangelho de Lucas e o Quarto Evangelho), as várias imagens da virgem, a mulher junto à cruz e a mulher que deu à luz o Messias se reforçariam mutuamente. Ademais, afirmando que aquela que sofreu as “sete dores” é agora coroada com “doze estrelas”, a figura de Maria responde ao problema sempre difícil do sofrimento.
Excurso: autor do Quarto Evangelho e das Epístolas[17]
Além do Quarto Evangelho, três epístolas nos foram conservadas pela tradição sob o nome de João.
Com relação ao Quarto Evangelho este provavelmente se formou em etapas sucessivas, de tal forma que se pode falar de autores desse escrito, isto é, um conjunto de discípulos que formam a chamada “escola joanina”. O nome, porém, daquele que fez a última redação (o redator) nos é desconhecido. É possível, todavia, determinar sua personalidade: era judeu-cristão que se esforçou para rejudaizar o Evangelho por meio de retoques de amplitude menor. Estes se referem à escatologia, conforme Rudolf Bultmann bem destacou.
No seu conjunto, o Quarto Evangelho desenvolve o princípio de uma escatologia já realizada[18], influenciada pelos modos de pensar gregos. O judaísmo distinguia o mundo presente e o mundo (escatológico) futuro; conforme Jo 8,23, os dois mundos coexistem: um é o “embaixo” (este mundo) e o outro é o “em cima”, em Deus (13,1). A ressurreição não deve mais ser esperada para o instante em que for instaurado o “mundo futuro” (cf. Dn 12,1-2), mas já está realizada em e por Cristo (11,23-26). Aquele que crê em Cristo já passou da morte para a vida (5,24; 1Jo 3,14), não mais verá a morte, isto é, a morte no sentido semítico do termo, esta quase-aniquilação no Xeol (8,51; 11,25). A morte é apenas aparência (cf. Sb 3,2). Nesse sentido, os que crêem em Cristo não serão julgados, e os que recusam crer já estão julgados (3,18-21.36). Tudo isso supõe antropologia de tipo grego, com distinção entre alma e corpo.
Mas o último redator do Quarto Evangelho quis reintroduzir a escatologia judaica herdada de Daniel: é apenas “no último dia” que ressuscitará quem crer em Cristo (6,39.40.44.54; opor 11,23-26); é apenas “no último dia” que ele será julgado (12,48), quando, à voz de Cristo, todos os que estão nos túmulos daí sairão, uns para a ressurreição de vida, os outros para a ressurreição de julgamento (5,28-29; cf. Dn 12,2; opor 5,24).
Além disso, o autor do Quarto Evangelho afirma diversas vezes a divindade de Cristo, Palavra encarnada, dando-lhe até o título de “Deus” (1,1; 20,28). O último redator, inserindo o v. 3 na grande oração de Cristo (17), reage, distinguindo “o único Deus verdadeiro” e aquele que Deus enviou, o Cristo (opor 1Jo 1,2). Afirmar que Cristo era Deus, não seria admitir que existiam dois deuses, o que deveria aparecer como blasfematório para um judeu-cristão antes que fosse elaborada uma teologia trinitária?
Mesmo abstraindo dos retoques feitos pelo último redator, pode-se manter um laço estreito entre o Quarto Evangelho e o apóstolo João? O autor mais antigo que afirma explicitamente isso é S. Irineu de Lion: “Em seguida, João, o discípulo do Senhor, o mesmo que repousou sobre seu peito, publicou também o Evangelho durante sua estada em Éfeso”. Numerosos autores eclesiásticos antigos admitiram isso sem dificuldade. De fato, o Evangelho se apresenta sob a garantia de um discípulo “que Jesus amava”, testemunha ocular dos fatos que relata (21,20-24; cf. 13,23). Como João apóstolo, ele devia ser pescador na Galiléia (21,2.7; cf. Mc 1,19-20). São Lucas confirmaria indiretamente essa identificação; com efeito, esse “discípulo que Jesus amava” aparece ligado por amizade com Pedro (Jo 13,23s; 18,15; 20,3-10; 21,20-23); ora, Lucas nos diz que era o caso de João apóstolo (Lc 22,8; At 3,1-4; 4,13; 8,14). Tal identificação, porém, apresenta dificuldades, e poucos estudiosos identificariam hoje o Discípulo Amado, que foi a fonte da tradição do Quarto Evangelho (cf. Jo 19,35; 21,20.24), com João. A principal delas é explicar como um pescador da Galiléia, por suposição não instruído (At 4,13), tenha podido escrever um Evangelho tão elaborado e tão adaptado a um auditório helenizado. Até entre os católicos, autores como os exegetas Raymond Brown e Rudolf Schnackenburg, depois de a terem admitido, terminaram por abandoná-la. Certamente não o fizeram sem razões sérias.
Seria verossímil que, ao escrever seu Evangelho, João apóstolo omitisse o relato de certas cenas às quais havia assistido, cenas tão importantes como a ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,37), a transfiguração (Mc 9,2), a instituição da Eucaristia (Mc 14,17s), a agonia de Jesus no Getsêmani (Mc 14,33)? Também foi objetado o fato de que, segundo certos testemunhos aos quais aludem muitos textos litúrgicos, João apóstolo teria morrido mártir relativamente cedo, e que, portanto, não teria podido escrever o Evangelho que leva seu nome.
Por fim, a identificação do “discípulo que Jesus amava” com o apóstolo João também apresenta dificuldades[19]. Nesse ponto é marcante a mudança de opinião de Raymond Brown, um dos maiores especialistas em João. Brown defendia em 1966 no seu grande comentário sobre o Evangelho de João a identificação entre João e o Discípulo Amado, mas no seu livro “A comunidade do Discípulo Amado”, em 1979, mudou de opinião: cf. p. 34s do referido livro.
Contrariamente aos dados de Jo 21 (que provavelmente é um acréscimo do redator final e cuja originalidade não se deve buscar no nível cristológico e sim eclesiológico; assim C. H. Dodd pensa que o redator desejava esclarecer alguns conflitos surgidos na comunidade apostólica em torno do papel de Pedro e do discípulo predileto), ele parecia morar de preferência nas vizinhanças de Jerusalém. Com efeito, só aparece no momento da última ceia em Jerusalém (Jo 13,23; essa misteriosa figura só aparece a partir de Jo 13[20], completamente ausente no livro dos sinais) e, identificado explicitamente a certo “outro discípulo” (Jo 20,2), era conhecido do Sumo Sacerdote e da serva que guardava a porta de seu palácio, e assim aparenta ter ligações nesse ambiente (Jo 18,15-16). Compreendemos então que certos comentadores tenham proposto, entre numerosas hipóteses[21] (mais de vinte!), a de Lázaro. Este discípulo habitava nas vizinhanças de Jerusalém (mais precisamente em Betânia, aldeia nas proximidades de Jerusalém, a cerca de 15 estádios [2,8km]: cf. Jo 11,18), e nada impede que fosse conhecido do Sumo Sacerdote. Por outro lado, quando ele cai gravemente enfermo, suas irmãs mandam um mensageiro dizer a Jesus: “Aquele que amas está doente” (11,3; cf. 11,36). Na intenção das irmãs de Lázaro, nenhuma confusão era possível: Jesus tinha apenas um único amigo. Não seria ele então “o discípulo que Jesus amava” (mais que o homem rico do qual fala Mc 10,21)? Como vemos, a própria pessoa desse “discípulo que Jesus amava” permanece rodeada de mistério (cf. p.43 in Pedro e Roma, J. Gnilka).
Finalmente, quanto às Epístolas, elas oferecem com o Evangelho sob a sua forma atual tal parentesco literário e doutrinal que é difícil não atribuí-las ao mesmo autor, provavelmente aquele “João o Ancião” do qual falava Papias (cf. 2Jo 1; 3Jo 1).
Mas antes de encerrar devo acrescentar as palavras contidas na Instrução da Pontifícia Comissão Bíblica sobre a verdade histórica dos Evangelhos Sancta Mater Ecclesia: “[…] os que instruem o povo cristão […] têm necessidade de suma prudência […]. Abstenham-se absolutamente de propor novidades vãs ou não bastante comprovadas. Novas opiniões, já solidamente demonstradas, exponham-nas, quando necessário, com cautela, tendo sempre presentes as condições dos ouvintes. É-lhes severamente proibido divulgar, favorecendo o prurido de novidades, qualquer tentativa de solução de dificuldades, sem uma escolha prudente e um sério exame, para não perturbar a fé de muitos”.
Leitura espiritual
Liturgia das Horas, v.IV: Dos Sermões de São Bernardo, abade, “Estava sua Mãe junto à cruz”, 15 de setembro (Memória Litúrgica de Nossa Senhora das Dores).
Liturgia das Horas, vol.III: Das Homilias de São João Crisóstomo, bispo, “Adão e Cristo, Eva e Maria”, Ofício das Leituras, da Memória de Santa Maria no sábado.
Liturgia das Horas, vol.III: Da Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja, do Concílio Vaticano II, “A maternidade de Maria na economia da graça”, Ofício das Leituras, do Comum de Nossa Senhora.
Prof. Diác. Everaldo Ribeiro Franco
[1] No século II, Clemente de Alexandria assinala que “observando que nos Evangelhos haviam sido narrados os fatos corporais, João, o último de todos, compôs o Evangelho espiritual”, o que significa que João esforçou-se por dar o sentido das lembranças de cada comunidade à luz do Espírito Santo e numa perspectiva nitidamente pós-pascal.
[2] Nunca aparece no Quarto Evangelho o nome próprio (Maria) da mãe de Jesus; chocante omissão, pois o autor não é contrário à menção nominal das mulheres, e faz umas quinze referências a outras Marias (a irmã de Marta, a Madalena, e a esposa de Clopas).
[3] O Quarto Evangelho, mais que os sinóticos, quer dar a entender o sentido da vida, dos gestos e das palavras de Jesus. Os acontecimentos da vida de Jesus são sinais (atos de Jesus dotados de particular significação espiritual que revelam aspectos de si mesmo), cujo sentido não transpareceu logo de início, só sendo compreendido após a glorificação de Cristo (cf. Jo 2,22; 12,16; 13,7). São João chama de sinais aos milagres de Jesus, para deixar bem claro que eles têm continuidade na vida da comunidade e assim nos atinjam no hodie. Muitos vêem neste sinal da mudança da água em vinho, a elevação do casamento (uma realidade natural) em um Sacramento (uma realidade sobrenatural).
[4] Entre os convidados São José não é citado, coisa que não se pode atribuir a um esquecimento do evangelista: este silêncio – e outros muitos no Evangelho – faz supor que o Santo Patriarca já tinha morrido.
[5] Porque mãe, Maria é medianeira. Pois, pelo fato de ela ter sido mediadora da encarnação, isto é, porque teve a “participação mais alta e mais real na humanidade de Cristo” (A. Müller), ela pode ser hoje a nossa medianeira junto a Deus. Ela goza, junto ao único Mediador, de um verdadeiro “direito materno” (cf. LG 60-62; Redemptoris Mater, II e III). Com razão sentencia o povo: “Peça à mãe que o Filho atende”. Todavia, o poder da Virgem diante de Deus é um poder de ordem moral, como o da rainha-mãe junto ao trono do rei. É um “direito de impetrar, não de imperar” (Duns Scotus). Ela não é a onipotência criadora e salvadora, mas a omnipotentia supplex (a onipotência suplicante).
[6] “No Sinai, no terceiro dia, Iahweh revelou sua glória a Moisés. E o povo acreditou nele também” (Ex 4,30-31). “Em Caná, no terceiro dia, Jesus revelou sua glória, e seus discípulos acreditaram nele” (Jo 2,1.11).
[7] A Mãe de Jesus, segundo o evangelista, ainda não vira o Filho fazer nenhum milagre; com que direito atribuir-lhe exegeticamente um conhecimento extraordinário que não tem nenhum apoio no Quarto Evangelho? Além disso, se Maria tivesse realmente pedido um milagre, por que se teria ela dirigido em seguida aos criados? (cf. p. 161, in Leitura do Evangelho segundo João I, Xavier Léon-Dufour).
[8] I. de La Potterie, Maria nel mistero dell’alleanza.
[9] Essa expressão não é usual quando um filho se dirige à sua mãe, mas é comumente usada quando Jesus se dirige às suas interlocutoras (cf. Mt 15,28; Lc 13,12; Jo 4,21; 8,10; 20,15).
[10] Hoje muitos admitem que este título remete à tradição profética sobre a “Mulher-Sião”, que desempenha papel materno no tempo da salvação. Este tema, pois, que encontra a sua expressão mais plena na cena do Calvário, apresenta claramente a Mãe de Jesus como o início da maternidade da Igreja (cf. Filha de Sião, in Dicionário de Mariologia, Fiores e Meo).
[11] Cf. Mt 27,54 e Mc 15,39.
[12] Para compreendermos a dificuldade real suscitada pela resposta de Jesus à sua Mãe, é preciso lembrar-se de dois dos três períodos da vida de Jesus. O primeiro corresponde ao que chamamos vida oculta. Durante este período, Maria é a Mãe de Jesus e atua como tal para todos os efeitos. Diz-nos, a propósito, o evangelista S. Lucas que Jesus era submisso a Maria e José (cf. Lc 2,51). O segundo período compreende o da sua vida pública. Ao longo deste, Jesus quer atuar unicamente determinado pela vontade do Pai. Esse período começa em Caná da Galiléia; por isso dirige-se à sua Mãe com palavras que soam duras. O terceiro período começa com a paixão.
[13] O simbolismo em João é histórico e está a serviço da história de Jesus. Assim história e símbolo não estão em oposição.
[14] S. Agostinho declara que, se Maria é mãe da Cabeça, ela é também mãe dos membros. Ela é, portanto, mãe do “Cristo total” (cf. LG 53).
[15] A exegese atual é praticamente unânime ao afirmar que a mulher é direta e primariamente a Igreja. Apresenta-se rodeada de uma auréola celeste, mas ao mesmo tempo, “com dores e ânsias da maternidade”. Alude-se, pois, a algo muito vulgar no Apocalipse: uma visão dialética da Igreja como um conjunto de grandeza e miséria, luz e sombra. O filho varão é, sem dúvida, o Messias, mas considerado como cabeça e síntese do povo de Deus.
[16] Até o século V as Igrejas da Síria, Capadócia e mesmo da Palestina não parecem ter incluído o Apocalipse no cânon das Escrituras. Foi S. Agostinho, em um Concílio africano realizado no fim do século IV, que insistiu em pôr o Apocalipse no cânon neotestamentário.
[17] Fonte: Bíblia de Jerusalém (nova edição, revista e ampliada, agosto 2002).
[18] Se tomarmos o capítulo 6 do Evangelho de João, teremos um bom exemplo de escatologia já realizada e escatologia futura. Em Jo 6,47 Jesus diz: “[…], quem crê possui a vida eterna”. Jesus fala no presente. Portanto a vida eterna começa aqui e agora: o eterno entrou no tempo. É a escatologia presente ou realizada, própria do Evangelho de São João, e que se completa com a futura: “E eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,44).
[19] A presença do discípulo amado aos pés da cruz, momento em que todos os discípulos fugiram, sugere que ele não era do número dos Doze (cf. Jo 19,25-27).
[20] Esse discípulo está presente em: Jo 13,23; 19,26-27; 20,2-10; 21,7.20. À notícia do sepulcro vazio, o mesmo discípulo “viu e creu” (Jo 20,8). É o único discípulo nos evangelhos que creu tendo visto somente o sepulcro vazio e sem se beneficiar de nenhuma aparição (cf. p.128, in Metodologia do Antigo Testamento, Horácio Simian-Yofre, Loyola).
[21] Xavier Léon-Dufour em seu livro Leitura do Evangelho segundo João I propõe que seja Filipe de Betsaida (p. 152).