FORTALECER A INTELIGÊNCIA HUMANA PARA UMA SAUDÁVEL INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Uma reflexão filosófico-cristã sobre os limites e possibilidades da Inteligência Artificial diante da dignidade e da razão humanas.

Tempo de leitura estimado: 5 min

Foto: Diocese de Uberlândia

Estênio Oliveira Silva

No início de sua obra Metafísica, Aristóteles afirma que todos os seres humanos, por natureza, aspiram ao saber. Com essa frase, ele demonstra que o ser humano tende a buscar continuamente o conhecimento; está em sua própria essência o desejo de sempre aprender mais. Por meio do saber, a humanidade procura evoluir a todo momento. Ao longo da história, o conhecimento foi empregado para favorecer a vida cotidiana.

Essa busca constante levou o ser humano ao progresso. Se analisarmos com atenção, veremos que esse desenvolvimento nos trouxe aos tempos atuais, à era digital, marcada pela rápida transformação tecnológica. Na contemporaneidade, a técnica avança a passos largos, revelando o profundo anseio humano de aprimoramento, expresso na incansável busca pela compreensão da realidade.

Talvez o avanço mais emblemático hoje seja a Inteligência Artificial, conhecida como IA ou AI (artificial intelligence) em inglês. Trata-se de mais uma grande conquista derivada do desejo humano de evoluir. Com a criação do computador, os recursos tecnológicos tornaram-se cada vez mais acessíveis.

A Santa Igreja tem refletido sobre essas questões e publicado documentos acerca da tecnologia. Recentemente, em janeiro de 2025, foi divulgada pelo Dicastério da Doutrina da Fé, em conjunto com o Dicastério para a Cultura e a Educação, a nota Antiqua et Nova, que aborda a Inteligência Artificial, oferecendo uma resposta a esse enorme avanço tecnológico e refletindo, sob um olhar filosófico, sobre a inteligência humana.

“A questão fundamental é, e continuará sendo, humana, isto é, se, no meio destes progressos tecnológicos, ‘o homem, enquanto homem, está se tornando realmente melhor, ou seja, mais maduro espiritualmente, mais consciente da dignidade da sua humanidade, mais responsável, mais aberto aos outros, especialmente aos mais necessitados e aos mais frágeis’ (cf. João Paulo II, Carta Encíclica Redemptor Hominis, 15). Nosso desafio final sempre será o ser humano. Nunca o percamos de vista!”

Com base nesse trecho da Redemptor Hominis, proponho uma breve reflexão filosófica sobre a relação entre o ser humano e a IA. Antes disso, é necessário considerar seus benefícios.

Para começar, podemos recordar que ela pode auxiliar profundamente o sistema de saúde: primeiro, no campo da pesquisa, permitindo estudar com maior precisão doenças consideradas incuráveis; depois, na administração de novos medicamentos, tratamentos e até exames.

Além disso, a IA pode contribuir para a preservação ambiental. Ela é capaz de desenvolver estratégias para combater o aquecimento global, auxiliando cada país conforme sua realidade e respondendo às exigências ambientais atuais.

No mercado de trabalho, sua atuação já é notável. Em empresas de vendas on-line, ela entra em ação para indicar ao público seus interesses específicos, tornando a experiência mais personalizada e atraente. Também pode colaborar na criação de novas profissões, ajudando, assim, no enfrentamento do desemprego.

Na educação, ela pode favorecer o acesso ao conhecimento. Contudo, cabe uma observação: seu uso é realmente proveitoso quando utilizado de forma adequada, como instrumento de estudo. Entretanto, muitas vezes a IA é utilizada equivocadamente como um meio rápido de “obter conhecimento”, sem o esforço necessário para aprender.

Sem dúvida, a Inteligência Artificial possui inúmeros aspectos que não cabem aqui, mas é essencial refletir se os seus benefícios devem, acima de tudo, levar o ser humano a tornar-se melhor, conforme afirma a Redemptor Hominis, fortalecendo suas relações interpessoais e sua característica própria, a razão.

Quanto ao uso inadequado, muitas pessoas cometem excessos. Como dito no início, o ser humano possui o desejo de “saber”, pois é inerente a ele a capacidade de pensar — justamente aquilo que o distingue dos demais seres vivos.

Voltemos, então, à frase de São João Paulo II. Estarão esses progressos tecnológicos realmente ajudando o ser humano a ser melhor? Para responder, reflitamos novamente sobre suas palavras: será que essas inovações estão tornando o ser humano verdadeiramente mais pleno? Assim, surge outra questão: como temos exercido nossa capacidade de raciocínio diante do avanço tecnológico? Essa reflexão nos faz indagar se estamos usando a razão ou entregando essa função à IA. Toda vez que delegamos atividades simples à Inteligência Artificial, negligenciamos nossa preciosidade — a razão — e nos aproximamos de um agir quase mecânico.

A humanidade ainda pensa? Ainda sabe o que é pensar? Essas perguntas podem nos desestabilizar, pois nos colocam diante de nós mesmos. A razão nos provoca a utilizar a IA adequadamente. Contudo, muitos compartilham informações na internet sem analisar, sem questionar e simplesmente permitem que a IA “pense por eles”.

Portanto, tornar o ser humano melhor, segundo São João Paulo II, é fazê-lo “mais maduro espiritualmente, mais consciente da dignidade da sua humanidade, mais responsável, mais aberto aos outros, especialmente aos mais necessitados e aos mais frágeis”. Esse trecho tem um teor mais teológico, mas contém também profundas lições filosóficas. Por quê? Porque nos convida a refletir sobre nossa humanidade diante do impressionante avanço da Inteligência Artificial no mundo contemporâneo.

É fundamental refletir sobre isso para que não percamos nossa essência humana. A tecnologia, de forma alguma, pode criar divisões nas relações interpessoais, pois, assim como a razão faz parte da essência humana, a necessidade de convivência também é constitutiva do ser humano. Desse modo, a IA deve colaborar para que a pessoa se aperfeiçoe — e jamais substituí-la.

 

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