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TÉCNICA, CIÊNCIA, ÉTICA E CASA COMUM: UMA INTERSEÇÃO CONTEMPORÂNEA

Uma reflexão ética e filosófica sobre tecnologia, responsabilidade humana e cuidado com a casa comum a partir da Laudato Si’ e do cinema contemporâneo.

Pedro Henrique Franco Serrano VieiraPublicado por Pe. JotaPê 5 min de leitura Sem comentários
Foto: Departamento de Comunicação

Pedro Henrique Franco Serrano Vieira

A canção “Cântico do Irmão Sol”, escrita por São Francisco, é um hino que louva a Deus pela sua boa criação. O canto reconhece que a natureza se constitui como condição fundamental para a existência e permanência do homem no mundo. Alguns versos dessa canção foram utilizados pelo Papa Francisco em sua carta encíclica Laudato Si, de modo a destacar o sustento da vida proporcionado pelo planeta Terra, que, na contemporaneidade, se vê ameaçado pelo mal praticado por aqueles que mais deveriam conservá-lo.

Ainda no primeiro capítulo de sua carta, o Papa Francisco recorda que reflexões teológicas ou filosóficas sobre a humanidade e o mundo, atualmente marcados pela intensificação tanto do ritmo de vida quanto do trabalho das pessoas, podem soar repetitivas e vazias se, quando confrontadas com a realidade, não contribuírem de forma inédita para a história do indivíduo. Nessa perspectiva, o presente estudo, que busca apresentar uma reflexão filosófica a respeito do cuidado com a casa comum, propõe o confronto mencionado a partir da interseção entre a arte e a ciência proporcionada pelo filme Interestelar.

Dirigido por Christopher Nolan, o drama lançado em 2014 retrata a vida terrestre após uma série de catástrofes climáticas causadas pelo homem, que culminaram no esgotamento das reservas naturais da Terra. Diante dessa situação, o enredo apresenta um grupo de astronautas que recebe a missão de encontrar um novo planeta elegível para que a raça humana pudesse estender a sua existência.

Embora seja uma visão de ficção científica, o filme apresenta grande esmero na exposição das teorias científicas, fato que se justifica pela presença do físico Kip Thorne em sua produção. Ademais, a forma como o ambiente terrestre futuro foi retratado também tem referência no mundo real: as tempestades de poeira fílmicas e suas consequências sobre a agricultura são baseadas no Dust Bowl da década de 1930, nome dado ao período de seca e fortes ventos que arrastavam grandes quantidades de particulado do solo das grandes planícies do centro sul dos Estados Unidos. Esse particulado transportado formava grandes nuvens de poeira que escureciam o céu e adentravam cidades, cobrindo prédios e casas, causando também problemas respiratórios na população americana. Nos campos, os fortes ventos com poeira também destruíam as plantações, tornando a agricultura uma atividade quase impossível.

Diante do retrato de uma condição ambiental adversa provocada pela ação humana, o filme abre espaço para reflexões sobre o cuidado com a casa comum. Nesse domínio de discussão, o filósofo alemão Hans Jonas, em sua obra “O Princípio Responsabilidade[1]” discute a necessidade de ampliação do modelo da ética tradicional, que atualmente é pautado nas consequências imediatas da ação, de modo a abarcar também uma análise crítica dos impactos futuros do agir humano.

O desenvolvimento da técnica à luz da ciência, sobretudo a partir do período moderno, inaugurou uma era em que prever os potenciais efeitos da ação do homem sobre a natureza se tornou fundamental para delinear um agir compatível com a permanência da vida humana sobre a Terra. A tecnologia – junção da técnica com a ciência – passou a evidenciar o grande potencial das realizações humanas, de forma que o progresso obtido alimentava–e ainda alimenta–um desejo insaciável por novas descobertas. Nesse caminhar desenfreado é que deve então agir o princípio ético jonasiano, sobretudo ancorado na premissa de que a capacidade técnica adquirida pelo homem pode representar um motor para ações cujas consequências passariam a significar o fim da raça humana.

Mas, como colocar freios na prosperidade a partir de meras especulações sobre impactos negativos a longo prazo? Para responder essa pergunta é necessário recorrer ao conceito da heurística do medo, proposto também por Hans Jonas, o qual consiste em promover a certeza de que uma ação é má a partir da demonstração empírica de suas consequências. As tempestades de areia, expostas no filme Interestelar, constituem o que se entende como demonstração empírica, uma vez que aponta o que aconteceria na vida real, caso a humanidade, motivada pelo progresso, continuasse a explorar a Terra de forma indiscriminada. Em outras palavras, a ficção científica abre espaço para o medo de enfrentar uma realidade que seja semelhante à do filme. Tal temor demonstraria claramente o cuidado necessário para com a casa comum e o porquê tê-lo.

Uma vez refletido sobre a necessidade de se medir as consequências das ações humanas a longo prazo, é hora de cada um pensar o que de concreto é possível ser feito para que de fato essa avaliação se torne cultural. Nesse sentido, o Papa Francisco também aborda, na carta encíclica referida, a importância de uma educação que vise a aliança entre a humanidade e o ambiente. A sensibilidade ecológica, termo cunhado pelo pontífice, encontraria lugar entre os jovens à medida que os hábitos de consumo fossem repensados, sendo essa mudança verdadeiramente mais difícil para os que cresceram estimulados pelo consumismo.

Portanto, fica evidente que o cuidado com a casa comum exige profundas transformações na forma de viver, que vão desde o aprendizado sobre a natureza até a ressignificação da necessidade material. Dessa forma, com esperança de alcançar a vida eterna, o ser humano é convidado a assumir sua responsabilidade na conservação do planeta, tendo em vista que, como lembra Francisco, o que há de bom nele será incorporado à realidade da festa do céu.

[1] Hans Jonas estabelece princípio responsabilidade como uma ética em que o mundo animal, vegetal, mineral, biosfera e estratosfera passam a fazer parte da esfera da responsabilidade (BATTESTIN; GHIGGI, 2010).

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Pedro Henrique Franco Serrano Vieira
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Fonte
Pedro Henrique Franco Serrano Vieira

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